
“... passo os dias nesta enfermaria a contar os ladrilhos dos pisos, os vidros das janelas... como a contar que o resto de minha vida em tudo me é inútil, bem como eu mesma. Nada me convence, Dr. Marcelo, que haja uma razão para eu continuar a viver; desespero... desespero... desespero, é o que tenho só dentro de mim. Não tenho vida, ela não me pertence e nunca pertenceu; há só um imenso nada; você não me impedirá de morrer, nem de ninguém; nem a morte eu desejo, pois só tenho a absoluta ausência de vida, o resto será somente a consecução...” (Eliane, carta em 1992).
Eliane jogou-se em frente a um trem do metrô em São Paulo, em um final de semana em que estava visitando sua família; tinha somente 21 anos, e passou muitos meses internada no HC quando eu ainda era médico residente em psiquiatria. Nestes 20 anos na especialidade que completarei este ano tive 6 pacientes meus que cometeram suicídio. Em minha família tive um parente um tanto distante que quando eu era criança também matou-se. Não dá para esquecê-los todos. Guardei durante muito tempo uma sensação incômoda, parecida com uma dor nas costas que não passa nunca completamente sobre “será que fiz alguma coisa errada ou deixei de fazer alguma coisa?”, como uma confirmação de um fracasso que não poderia jamais ter ocorrido, que eu não deveria permitir que ocorresse. Estúpida onipotência médica esta. Mas o suicida deixa um rastro permanente. De fato, precisa-se de coragem para pensar seriamente na própria morte. Humildade também; esta idéia causa por si só angústia. Mas no ato suicida de fato planejado eu penso que há uma grande coragem; pode ser em meio ao desespero, à situação de ver-se sem saídas possíveis que não a morte. Mas não acho que seja algo que possa chamar-se de ato covarde. Dos meus seis pacientes que se suicidaram, quatro o fizeram dentro de um hospital psiquiátrico. Inicialmente cheguei a pensar nas possíveis faltas de segurança, negligência, intolerância à pessoa deprimida; mas isto é muito pouco e na verdade é somente um espelho da própria impotência minha enquanto psiquiatra destas pessoas. Faz parte do que Becker acabou por conceituar como “negação da morte”; como não podemos suborná-la, vivemos tentando deixar no faz de conta que ela não existe de fato assim tão próximo, assim tão assustadoramente presente. Talvez pudesse considerar que estes meus ex-pacientes que se mataram tiveram uma “agressiva misericórdia”. Agressiva sim, e o suicida não agride somente a si mesmo, não somente a si o ato inflingido contra o próprio ser (mente e corpo) atinge, mas pelo lastro deixado a familiares e amados e odiados. Um lastro incognoscível de escuridão e dor, que mesmo as convicções religiosas não conseguem responder na intimidade das lágrimas escondidas por dúvidas inquietantes de quem se foi de forma tão absurdamente incompreendida. E as dúvidas ficam rondando estes que ficaram, num redemoinho, tal qual no estreito de Messina, pego entre Scyla e Caribdes, onde ressentimentos, raivas, saudades, apegos ficam circulando, mas jamais respondidos.
Depois destes 6 pacientes, creio que já passaram de 100 as pessoas que atendi e que tentaram ou seriamente planejaram suas mortes, mas por uma razão ou outra, divina ou não, a vida continuou e isto não ocorreu. É então que pesa em relevância o dado de minha primeira postagem sobre este tema, que apareceu em uma reportagem do jornal “O Estado de São Paulo”. O suicídio é um processo, e a morte o clímax fatal. Neste processo existe uma comunicação. O suicida costuma deixar sinais de seu desejo e enamoramento com a morte. É este descerramento de mensagens verbais ou não, que geralmente estão criptografadas, que se pode levar ajuda profissional e espiritual a estas pessoas. No que se refere a este tema, o provérbio “cachorro que ladra não morde” não tem validade: por volta de 90% de pessoas que eliminaram suas próprias vidas deixaram algum aviso sobre sua intenção previamente; e as pessoas que tentaram de alguma forma têm mais de 30% de chances de tentarem novamente.
continua...
