Queria que me esperasses em tua porta, e, ao ver-me, saciasses minha sede, e aliviasses minha cegueira. Porque longos são os tempos de infortúnio, e a angústia da vida humana toma-me por completo, fazendo-me deixar de ver nas coisas, todas as coisas; fazendo-me deixar de sentir, sentindo a alma chorar.
Queria que dissesses: "Sou Lin-Hwan, a mulher do teu mundo, em teu mundo-mulher", e que tomasses minha mão, levando-me, já não mais cego, a conhecer as coisas que sabes, fazendo-me sábio sendo ignorante, tornando-me puro ao conhecer a corrupção.
Quando eu atravessar o deserto, queria ouvir-te entoar teu cântico, na sua nota primordial, e fazer-me ouvir a música existente em meu ser, presente nas esferas. Porque muitas foram as lamentações que ouvi, e muitos os gritos de dor e abominação que proferi, e a fealdade fez-me esquecer que tua música contém a própria criação. Então, sacia minha sede, toma-me pela mão, e canta tua música.
E quando Concórdia for restaurada, mostra-me a luz do ser, da qual se fez todas as outras luzes e cores, pois estou farto de trevas e preenchido com a escuridão do deserto em que habito. Veste-me de estrelas e dança tu comigo a harmonia que envolve todo o caos.
Queria que levantasses teu véu, dissipando as ilusões alimentadas pelos falsos sábios do deserto dos meus caminhos, que acendem velas à luz do sol, e, ignorando-o, dizem que iluminam o mundo com a chama tênue que seguram, e que o pó apaga. Revela-te a mim, para que eu seja minha própria verdade interior.
Espera-me tu em meu leito, para que possas enxugar meu rosto enrugado pelas decepções e sujo de suor e areia que o vento das terras áridas por onde passei castigou-me, e, estando eu limpo, digas: "Sou Lin-Hwan, a filha do rei distante, e espero para que possas tomar--me como tua em teu leito." Então, sacias minha sede, toma-me pela mão, canta tua música, mostra-me a luz, revela teu rosto e deita-te comigo, fazendo-me completo.
Quando atravessar o deserto, estando velho e cansado, enrugado pela desolação e coberto de cicatrizes mal curadas das lutas e provações que ele me submeteu, peço-te levar-me ao lago que há na montanha, para que eu possa refrescar meu corpo doído, envolvendo-me com a água da vida; e, do alto, contemplar (humildemente) os caminhos que percorri, e as belezas que só tu podes mostrar-me.
Assim, quando eu voltar do deserto, ofegante das guerras e exalando morte por meus poros, inspira em mim teu perfume, para que eu respire novamente e teu espírito preencha minha consciência, fazendo do mundo de minha mente uno como foi antes de ser.
Mas, agora que não posso ouvir-te em meu coração, que estou perdido sem saber meu norte, peço-te vir aos meus sonhos e falar-me da magia que há no deserto, em seus perigos ocultos, guiando-me a meu destino. Porque nada vejo além do horizonte, e só tu sabes perscrutar as distâncias do tempo. Então, sacias minha sede, toma-me pela mão, canta tua música, mostra-me a luz, revela teu rosto, deita-te comigo, refresca meu corpo, inspira-me a mente, fala tu nos meus sonhos. És Lin- Hwan, eternamente virgem, eternamente grávida.
E, quando vires exalar meu alento último, cheio do ar de meu deserto, já percorrido, queima-me na pira dos magos para que meu pó possa espalhar-se com o pó. Porque meu espírito estará arrebatado em outras mansões e tu, com tuas asas, o levará seguro. Só então serei um homem, pleno de vida e de amor.
11.03.1990
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Dr. Marcelo, bom dia! Gostei muito da sua criação. Gosto muito da forma que estrutura seu texto.É sua alma quem escreve. Você se parece com sua voz. Quero ler sempre e, num futuro breve,ver uma foto de seu trabalho como marceneiro.Um forte abraço da amiga e amiga de sua paciente. Valeria Berger
ResponderExcluirDr.marcelo, boa tarde! Bacana mesmo!!! Lendo, comecei a viajar em alguns nomes como Joyce, Kertz e até mesmo o Milan Kundera, em a "Insustentável Leveza Do Ser".Puxa...bem mágico o momento. Att.Bruno Franco
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