
Um dia ouvi o narrador e comentarista de futebol José Silvério, da Rádio Bandeirantes de São Paulo afirmar: “Eu não gosto de esporte. Eu gosto é de futebol!”. E sou assim também; já nem torço como antigamente, pois é parte da estratégia do que chamo “profilaxia do infarto”; aprecio com entusiasmo e sem exageros, quando é possível; para mim é quase incontestável que futebol situa-se numa categoria distinta de outros esportes. Nenhum suscita tanta magia e arrebatamento, parece ter uma alma própria, que carece aos outros. E costumo às vezes dizer que futebol se joga com três coisas principais: o cerebelo, hipocampo (sistema límbico), e o inconsciente. Pernas, canelas, joelhos são mera extensões. E, nesta colocação minha um tanto ousada, tocamos na integridade emocional e no delicado equilíbrio para se comandar um corpo, que por vezes parece estar presente somente a nossa frente ou na telinha, porém distante, etéreo, dependente das milhares de sinapses entre este hipocampo e o cerebelo, todas estas o substrato para o inconsciente para dar-nos a vida psíquica. As pessoas gostam de falar sobre o “emocional” do futebol, e é verdadeiro; é a percepção intuitiva da manifestação do inconsciente, que na linguagem popular, é o sinônimo da “caixinha de surpresas”, figura lingüística esta repetida centenas de milhares de vezes, todas as semanas. Mas fala-se de modo como se o emocional (inconsciente) fosse um objeto de controle, não um sujeito, um inconsciente que promove a realização dos desejos. Observem as narrações de rádio ou TV. E, quando ele (este emocional inconsciente) promove esta realização dos desejos, abre-se a caixinha das surpresas, como uma nova caixa de Pandora, podendo levar um atleta aos píncaros das glórias, ou ao vale das lágrimas, os torcedores às lágrimas e risos sublimais, ou à raiva e humilhação. Treinamentos de alto rendimento e performance biomecânica, padrões fisiológicos e comportamentais rigidamente controlados, preparações física, técnica e tática, etc muitas vezes acabam por contar pouco, e pior, deixando o jogador reduzido, à mercê de seu inconsciente ou do inconsciente coletivo. Lembram-se do Antonio Fagundes, o Barbosa, goleiro da seleção brasileira de 1950 e que carregou nos ombros e na alma a melancolia eterna de ter sofrido o gol da derrota? Lembram-se de Roberto Baggio, lembrado eternamente por ter perdido o pênalti que deu o título ao Brasil em 1994? Ambos, derrotados pelos monstros de seu próprio inconsciente, embora, tecnicamente, fisicamente e objetivamente impecáveis craques. Fiz estas duas lembranças porque saiu nesta 4.a feira 22 de Setembro na mídia esportiva a demissão do técnico do Santos por conta de ter punido Neymar, ao não escalá-lo para o jogo contra o Corínthians. O rebuliço todo durante mais de uma semana revelou o que o inconsciente coletivo faz com o futebol, e seus atores. Neymar tem se envolvido em situações ora deslumbrantes, ora decepcionantes. Tipicamente um exemplo que, se seu corpo é uma máquina perfeitamente talhada para executar o melhor futebol possível, seu inconsciente não coopera no mesmo sentido neste momento. Na coletividade do futebol, existem outros jogos em campo nos estádios da alma coletiva; o da grana, e representante do poder é o mais aparente. Temos o jogo da ciência: temos que transformar Neymar (e muitos outros), com todo o aparato científico da medicina esportiva em um vencedor. Juntou-se o jogo da ambição. Nisto, que lugar toma o jovem Neymar neste complexo sistema? Ou onde deixa de colocar-se, uma vez que subitamente perdeu o encanto geral e divide-se exteriormente em uma persona odiada ou amada, sinal de sua cisão interior. Mas este é apenas mais um exemplo de divagação, não se trata de diagnosticar alguém que absolutamente não conheço. Ele mesmo afirmou que não desejou agir assim, e retratou-se publicamente. Mas, em se tratando do inconsciente, nem todo desejo que encontra expressão e realização está na consciência; forma-se aquém desta.
A questão que isso suscita no futebol é que há uma complexa rede de relacionamentos, como na vida, dentro da qual cada sujeito ocupa determinada posição em relação ao outro, todas provisórias, e, no momento posso parafrasear Freud, e dizer que temos um mal-estar, seja na civilização, seja no futebol. Que já vinha desde Dunga, meses atrás, desde as políticas da CBF, e quiçá desde sempre. Nós, reles e vorazes torcedores, famintos pela sublimação do gol mais querido, queremos nada menos que a maestria dos jogadores, mas esbarramos nas relações (seja entre atletas, entre estes e técnicos, e entre dirigentes), e esbarramos no capital e no mercado, que, por fim, dá as cartas finais. E este domínio que acaba por ser o causador de nosso mal-estar; não está mais em campo, virou uma figura fantásmica, de bastidores, do inconsciente. A vivência humana do jogador, do craque, do matador, do driblador, daquele que rasga, chapela, que dá banho, que beija a camisa, que enfim, leva-nos ao delírio coletivo, esta é só mais uma figura, ou no linguajar futebolês, “peça de reposição”. Ponha-se um novo rei! The King is dead! Long live the King!
Pelé, Zico, Falcão, Rivelino, tantos outros parecem ter se despido desta persona. Resta saber se Neymar conseguirá. Enquanto nós permaneceremos os eternos amantes, no devaneio das pulsões em busca do prazer, da poesia utópica, da loucura, do gol como um gozo psíquico coletivo, e, enfim, como cantam os fiéis: “Aqui tem um bando de louco! Louco por ti Corínthians!”.
A razão? Ora, a razão não tem graça nenhuma nisto...
