quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pensamentos e devaneios sobre suicídio III


Em 2007 levei ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria um pequeno trabalho sobre suicídio nas cidades de São Roque e Mairinque (SP). Como são cidades menores que 100mil habitantes, estes dados não são computados pelos censos gerais. Neste levantamento, algumas coisas interessantes, pude perceber, e relacionam-se à notícia publicada de que 9000 pessoas cometeram suicídio em 2008 no Brasil (parte I deste tema). Além dos índices não terem uma abrangência total sobre a população, uma vez que somente centros populacionais maiores são computados, há também um outro ponto relevante: muito provavelmente o número de suicídios é sub-reportado, como se supõe ocorrer em todo o mundo. Quando se refere a este assunto a tendência sempre é o predominar do silêncio. Lembremos que seguradoras e muitos planos de saúde não dão cobertura para as tentativas de suicídio, ou não pagam o sinistro do seguro de vida para a pessoa que suicidou-se. Se você nunca leu suas apólices de seguro de vida ou de plano de saúde veja e comprovará por si mesmo. Uma vez muito tempo atrás tive um paciente que tentou matar-se com a ingestão de medicamentos, e ao dar entrada em um importante hospital privado de São Paulo, a família foi informada que o plano de saúde não cobriria a internação; isto fez com que houvesse um delicado arranjo para que o médico que o atendeu colocasse um diagnóstico de uma intoxicação de modo que ele pudesse ser tratado ali, e eu através de bilhetinhos ou telefonemas ao colega dava a prescrição a ser realizada para evitar suspeitas por parte de auditores. Não penso que seja incomum surgir outros diagnósticos no atestado de óbito em que se escreve que a pessoa morreu, mas não se menciona o suicídio, e isto tem origem diversas, seja pelo temor ao tema, o estigma deixado, despreparo ou receio de equipes médicas em dar este diagnóstico ou mesmo em tratar a pessoa desde sua chegada ao pronto-atendimento hospitalar quando isso ocorre. Mais além, tem determinados casos que envolvem acidentes, ou morte súbita e domiciliar que passam ao largo disto. Simplesmente muitas vezes não dá para saber ou é necessário um detalhamento de detetive.
No trabalho que mencionei, fiz um levantamento do número de suicídios durante o período de 2000 a 2006 naqueles dois municípios, e a população dos dois na época não chegava aos 100mil habitantes somada pelos dados do IBGE, e naquele período houve 46 mortes por suicídio. O fato mais curioso é que do total apenas 3 pessoas faziam tratamento em ambulatórios de saúde mental do SUS, e nenhuma das demais realizou tratamento privado. Muita gente morreu sem estar assistida seja por um psiquiatra, seja por um psicólogo. Outras tantas estiveram sofrendo também e à margem de assistência.
Este levantamento ressaltou a premente necessidade de programas em municípios de pequeno porte para detecção de população de risco de comportamentos que podem levar a auto-agressão. Mas de forma alguma isto pode ser considerado um fator a ser pensado isoladamente, uma vez que circunstâncias como comorbidades psiquiátricas, outros tratamentos e doenças clínicas, insuficiências de saúde pública e de educação, violência urbana e doméstica, abuso e dependência de substâncias (lícitas ou não) caminham a largos passos e de mãos dadas ao evento do suicídio, que aparece, enfim, sendo apenas a boca do funil de um problema não somente psiquiátrico, também de saúde pública e social. Não creio hoje ser possível em um país como o nosso, com problemas estruturais tão complexos em sua sociedade, pensar sobre programas de prevenção de suicídio unicamente. Como em outras tantas coisas.

2 comentários:

  1. Ocorre mui ilustre defensor da psiquiatria como umm todo, que a grande maioria dos pacientes, assim como eu, sofrem, como bem sabes, um terrível preconceito, por estar-se tratando com um especialista, um médico psiquiatrico. Com relação ao SUS, ter pequenos índices, creio ou melhor, tenho certeza, posso fazê-lo de catedra, que o tratamento ali dispensado, salvo raríssimas exceções, os médicos são apenas aviadores de receituarios, ou seja, não se busca dar aos pacientes uma qualidade de vida melhor e os médicamentos fornecidos "gratuitamente", não passam de placebos e assim o governo continua enganando o povo que obrigatóriamente são levados as urnas para lá depositarem os votos. Abraços, nobre médico.

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  2. Concordo com você, Alfredo. E acrescento que a melhor maneira de se combater o preconceito é a informação. Quanto ao SUS, você está correto, mas eu sou persistente...
    Um abraço!

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