
Em 2007 levei ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria um pequeno trabalho sobre suicídio nas cidades de São Roque e Mairinque (SP). Como são cidades menores que 100mil habitantes, estes dados não são computados pelos censos gerais. Neste levantamento, algumas coisas interessantes, pude perceber, e relacionam-se à notícia publicada de que 9000 pessoas cometeram suicídio em 2008 no Brasil (parte I deste tema). Além dos índices não terem uma abrangência total sobre a população, uma vez que somente centros populacionais maiores são computados, há também um outro ponto relevante: muito provavelmente o número de suicídios é sub-reportado, como se supõe ocorrer em todo o mundo. Quando se refere a este assunto a tendência sempre é o predominar do silêncio. Lembremos que seguradoras e muitos planos de saúde não dão cobertura para as tentativas de suicídio, ou não pagam o sinistro do seguro de vida para a pessoa que suicidou-se. Se você nunca leu suas apólices de seguro de vida ou de plano de saúde veja e comprovará por si mesmo. Uma vez muito tempo atrás tive um paciente que tentou matar-se com a ingestão de medicamentos, e ao dar entrada em um importante hospital privado de São Paulo, a família foi informada que o plano de saúde não cobriria a internação; isto fez com que houvesse um delicado arranjo para que o médico que o atendeu colocasse um diagnóstico de uma intoxicação de modo que ele pudesse ser tratado ali, e eu através de bilhetinhos ou telefonemas ao colega dava a prescrição a ser realizada para evitar suspeitas por parte de auditores. Não penso que seja incomum surgir outros diagnósticos no atestado de óbito em que se escreve que a pessoa morreu, mas não se menciona o suicídio, e isto tem origem diversas, seja pelo temor ao tema, o estigma deixado, despreparo ou receio de equipes médicas em dar este diagnóstico ou mesmo em tratar a pessoa desde sua chegada ao pronto-atendimento hospitalar quando isso ocorre. Mais além, tem determinados casos que envolvem acidentes, ou morte súbita e domiciliar que passam ao largo disto. Simplesmente muitas vezes não dá para saber ou é necessário um detalhamento de detetive.
No trabalho que mencionei, fiz um levantamento do número de suicídios durante o período de 2000 a 2006 naqueles dois municípios, e a população dos dois na época não chegava aos 100mil habitantes somada pelos dados do IBGE, e naquele período houve 46 mortes por suicídio. O fato mais curioso é que do total apenas 3 pessoas faziam tratamento em ambulatórios de saúde mental do SUS, e nenhuma das demais realizou tratamento privado. Muita gente morreu sem estar assistida seja por um psiquiatra, seja por um psicólogo. Outras tantas estiveram sofrendo também e à margem de assistência.
Este levantamento ressaltou a premente necessidade de programas em municípios de pequeno porte para detecção de população de risco de comportamentos que podem levar a auto-agressão. Mas de forma alguma isto pode ser considerado um fator a ser pensado isoladamente, uma vez que circunstâncias como comorbidades psiquiátricas, outros tratamentos e doenças clínicas, insuficiências de saúde pública e de educação, violência urbana e doméstica, abuso e dependência de substâncias (lícitas ou não) caminham a largos passos e de mãos dadas ao evento do suicídio, que aparece, enfim, sendo apenas a boca do funil de um problema não somente psiquiátrico, também de saúde pública e social. Não creio hoje ser possível em um país como o nosso, com problemas estruturais tão complexos em sua sociedade, pensar sobre programas de prevenção de suicídio unicamente. Como em outras tantas coisas.
Ocorre mui ilustre defensor da psiquiatria como umm todo, que a grande maioria dos pacientes, assim como eu, sofrem, como bem sabes, um terrível preconceito, por estar-se tratando com um especialista, um médico psiquiatrico. Com relação ao SUS, ter pequenos índices, creio ou melhor, tenho certeza, posso fazê-lo de catedra, que o tratamento ali dispensado, salvo raríssimas exceções, os médicos são apenas aviadores de receituarios, ou seja, não se busca dar aos pacientes uma qualidade de vida melhor e os médicamentos fornecidos "gratuitamente", não passam de placebos e assim o governo continua enganando o povo que obrigatóriamente são levados as urnas para lá depositarem os votos. Abraços, nobre médico.
ResponderExcluirConcordo com você, Alfredo. E acrescento que a melhor maneira de se combater o preconceito é a informação. Quanto ao SUS, você está correto, mas eu sou persistente...
ResponderExcluirUm abraço!