Que coisas podem ser perdoáveis, e quais coisas são imperdoáveis? Trata-se de uma difícil pergunta, mas da qual vez por outra nos deparamos. Começarei por aqui; pedir desculpas às vezes de nada resolve. Certas coisas são de fato imperdoáveis em minha maneira de ser e ver o mundo e a mim mesmo.Uma notícia divulgada na sexta-feira 1.o de Outubro: o governo dos EUA admitiu oficialmente e pediu desculpas por ter feito experimentos indevidos com seres humanos (1). Este era o “Tukesgee Syphilis Study”. Médicos americanos observaram, porém sem promover tratamento, a centenas de homens afro-americanos com sífilis em estágios tardios de evolução da doença, o que pode ter começado em 1932. Além disto, o governo americano confirmou ter infectado com sífilis em experimentos conduzidos de 1946 a 1948, com deliberada violação da ética médica. Os “cientistas” enviaram prostitutas infectadas por sífilis para uma prisão da Guatemala, uma instituição hospitalar psiquiátrica e acampamentos do exército para “testar possíveis novas curas”. Os homens poderiam ter relações sexuais desprotegidas com estas prostitutas, porém sem terem sido informados ou ter consentimento afirmado."Although these events occurred more than 64 years ago, we are outraged that such reprehensible research could have occurred under the guise of public health … we deeply regret that it happened, and we apologize to all the individuals who were affected by such abhorrent research practices.” Estas foram as palavras da Secretária de Estado Hillary Clinton (2).Esta questão atingiu-me de uma forma peculiar, por eu ser um médico que se considera também humanista. O mundo esteve sempre cheio de tiranos que vez por outra nascem e crescem espalhando sofrimento e sangue por suas mãos. De matadores de primogênitos no Velho Testamento, passando por Vlad Dracula (o Empalador), aos genocidas dos índios americanos, armênios, aos grandes tiranos do século XX estamos cheios de exemplos de gente que propositada e violentamente ceifou vidas aos montes. Sempre procuramos por similaridades entre estes perfis nas diversas tentativas de entender os tiranos. Mas, curiosamente, na história da humanidade, encerrar uma tirania nunca impediu que novas surgissem. E nunca nenhum tirano morto por vontade popular armada ou não fez com que a tirania em si deixasse de existir; ainda de tempos em tempos subsequentemente outros serem humanos novamente tornam-se vítimas de novos ciclos de tirania. Mas estas aqui que mencionei são formas tirânicas que transformaram-se em governos totalitários. O que a notícia trouxe de diferente, embora nem tanto espantoso, é que foi uma forma de tirania executada por agências de governo, em mais de um deles do mesmo país, e patrocinado por uma agência de saúde; não se menciona nenhum laboratório ou empresa da chamada "Big Pharma". Então neste caso não se tem apenas uma pessoa; tem-se uma sequência de pessoas que diluíram sua responsabilidade ética, em governos que sucederam-se, aparentemente democráticos. Alguém deve lembrar-se do filme “O Jardineiro Fiel” (“The Constant Gardener”, 2005) que tratou desse mesmíssimo tema. Não são mais “teorias de conspiração”, como vez ou outra toma conta da mídia. O que aconteceu foi um caso real, envolvendo pessoas inocentes, à mercê de autoridades, que ainda devem estar algumas vivas.
Mas desculpas não adiantam, assim como de boas intenções o inferno está cheio.
(1) http://www.wellesley.edu/WomenSt/Synopsis%20Reverby%20
(2) http://www.mcclatchydc.com/2010/10/01/101473/us-admits-it-infected-guatemalans.html#ixzz11OYPqSWB
Lamentavelmente é mais uma prova de que a crueldade humana não tem limites - principalmente quando o bjetivo final é o "vil metal".
ResponderExcluirParabéns pelo artigo.
A ganância, meu amigo e (still) instrutor, não enxerga limites; é tão voraz que consome-se a si mesma; os demais nem contam... obrigado pelo elogio! Um abraço!
ResponderExcluirBela crônica! Infelizmente o lado escuro é que a mesma é parte da história da humanidade. É muito bom saber que tu és humanista. Isto agrega ao meu ver maior valor ao seu trabalho profissional e como escritor. Entretanto, sabemos nós, que entre a raça humana, tais eventos ainda iram se repetir neste globo terrestre. É agradável ler suas (em minha opinião) crônicas. Abraço.
ResponderExcluirAo ler você, Alfred, lembrei-me da música dos Titãs "Miséria":
ResponderExcluir"Miséria é miséria em qualquer canto,
riquezas são diferentes..."
Acho que um erro político e ideológico foi imaginar que dividir riquezas traria menos miséria; a história do século XX mostra o contrário.
"Non curat numerum lupus." - O lobo não se preocupa com a contagem das ovelhas.
um abraço!