segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pensamentos e devaneios sobre suicídio II


“... passo os dias nesta enfermaria a contar os ladrilhos dos pisos, os vidros das janelas... como a contar que o resto de minha vida em tudo me é inútil, bem como eu mesma. Nada me convence, Dr. Marcelo, que haja uma razão para eu continuar a viver; desespero... desespero... desespero, é o que tenho só dentro de mim. Não tenho vida, ela não me pertence e nunca pertenceu; há só um imenso nada; você não me impedirá de morrer, nem de ninguém; nem a morte eu desejo, pois só tenho a absoluta ausência de vida, o resto será somente a consecução...” (Eliane, carta em 1992).

Eliane jogou-se em frente a um trem do metrô em São Paulo, em um final de semana em que estava visitando sua família; tinha somente 21 anos, e passou muitos meses internada no HC quando eu ainda era médico residente em psiquiatria. Nestes 20 anos na especialidade que completarei este ano tive 6 pacientes meus que cometeram suicídio. Em minha família tive um parente um tanto distante que quando eu era criança também matou-se. Não dá para esquecê-los todos. Guardei durante muito tempo uma sensação incômoda, parecida com uma dor nas costas que não passa nunca completamente sobre “será que fiz alguma coisa errada ou deixei de fazer alguma coisa?”, como uma confirmação de um fracasso que não poderia jamais ter ocorrido, que eu não deveria permitir que ocorresse. Estúpida onipotência médica esta. Mas o suicida deixa um rastro permanente. De fato, precisa-se de coragem para pensar seriamente na própria morte. Humildade também; esta idéia causa por si só angústia. Mas no ato suicida de fato planejado eu penso que há uma grande coragem; pode ser em meio ao desespero, à situação de ver-se sem saídas possíveis que não a morte. Mas não acho que seja algo que possa chamar-se de ato covarde. Dos meus seis pacientes que se suicidaram, quatro o fizeram dentro de um hospital psiquiátrico. Inicialmente cheguei a pensar nas possíveis faltas de segurança, negligência, intolerância à pessoa deprimida; mas isto é muito pouco e na verdade é somente um espelho da própria impotência minha enquanto psiquiatra destas pessoas. Faz parte do que Becker acabou por conceituar como “negação da morte”; como não podemos suborná-la, vivemos tentando deixar no faz de conta que ela não existe de fato assim tão próximo, assim tão assustadoramente presente. Talvez pudesse considerar que estes meus ex-pacientes que se mataram tiveram uma “agressiva misericórdia”. Agressiva sim, e o suicida não agride somente a si mesmo, não somente a si o ato inflingido contra o próprio ser (mente e corpo) atinge, mas pelo lastro deixado a familiares e amados e odiados. Um lastro incognoscível de escuridão e dor, que mesmo as convicções religiosas não conseguem responder na intimidade das lágrimas escondidas por dúvidas inquietantes de quem se foi de forma tão absurdamente incompreendida. E as dúvidas ficam rondando estes que ficaram, num redemoinho, tal qual no estreito de Messina, pego entre Scyla e Caribdes, onde ressentimentos, raivas, saudades, apegos ficam circulando, mas jamais respondidos.
Depois destes 6 pacientes, creio que já passaram de 100 as pessoas que atendi e que tentaram ou seriamente planejaram suas mortes, mas por uma razão ou outra, divina ou não, a vida continuou e isto não ocorreu. É então que pesa em relevância o dado de minha primeira postagem sobre este tema, que apareceu em uma reportagem do jornal “O Estado de São Paulo”. O suicídio é um processo, e a morte o clímax fatal. Neste processo existe uma comunicação. O suicida costuma deixar sinais de seu desejo e enamoramento com a morte. É este descerramento de mensagens verbais ou não, que geralmente estão criptografadas, que se pode levar ajuda profissional e espiritual a estas pessoas. No que se refere a este tema, o provérbio “cachorro que ladra não morde” não tem validade: por volta de 90% de pessoas que eliminaram suas próprias vidas deixaram algum aviso sobre sua intenção previamente; e as pessoas que tentaram de alguma forma têm mais de 30% de chances de tentarem novamente.
continua...

5 comentários:

  1. Achei interessantíssimo o assunto, pois nenhum de nós está em hipotése alguma livre do convívio com pessoas que tenham tal tendência. Muito bom observar que sempre há sinais, cabe aos que amam tais pessoas saber decifrá-los.
    Fábio Chanes

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  2. O tema é espinhoso por si só! Aqueles que passam por um período preparatório, que faz planejamentos a respeito de tirar de si mesmo a própria vida; planejamento este que chega a se tornar real na tela de imagens do banco de dados mental, muitas das vezes, não atingem o final de seus objetivos que foi muito bem traçado e planejado, pelo fato, de que algo ou alguma coisa, ou até mesmo alguém, que não estava dentro do planejamento, entra na frente do turbilhão, como se fosse uma enorme barreira a ser tranponível e daí, um novo planejamento começa a ocorrer, mas diante da barreira que surgiu com se enviada pelas Hostes Divinas, vão fazendo esmorecer e esvair e demontando item à item o planejamento inicial, até que se torna ao agente difícil reformula-lo da forma que havia realizado anteriormente. Novos fatores, novas realidades. Li certa feita em um livro de auto ajuda, anos atrás, onde o autor, cujo nome me foge, dizia mais ou menos assim: "Aquele que mata alguém outra pessoa o faz levado pelo ódio do momento e aquele que tira a própria vida, o faz por ódio de si mesmo..." A bem da verdade, diante de tanta maldade do mundo atual e globalizado, está frase já não tem hoje o mesmo sentido que teve quando a li há anos atrás. Entrentanto, o texto é em minha humilde opinião, um demonstrativo entre a tênue linha divisória que existe entre a vida e a morte!

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  3. Li o texto durante o dia,e não posso deixar de dizer que me tocou muito e me identifiquei com ambos (Devaneios..I e II).Não sei se isso é bom ou ruim? Mas tenho certeza que muitos se identificam com os textos, mas poucos tem coragem de assumir o quanto somos suscetíveis e frágeis.Diante desse vazio que nos persegue...

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  4. Parabéns pelo excelente artigo. Ensejou muitas reflexões...
    O que quero aqui é dar o meu testemunho do que foi citado: "Mas o suicida deixa um rastro permanente". Minha mãe perdeu o pai, por suicídio, aos 13 anos, e até hoje, aos 76 anos de idade, ela lamenta e não consegue entender a tragédia. Estive com ela no hospital, neste ano, quando ela teve fortíssima infecção urinária, que a levou para estado de demência temporária. Nos momentos em que delirava nas madrugadas ela chamava o pai e perguntava"por que vc fez isso, vc era tão bonito...pai...pai..." Emocionante e chocante. Triste. Terrível.
    Tenho certeza que isso foi causa de muito na vida dela e que ela vai morrer carregando esse indelével trauma.Trauma que a pertuba todos os dias desde aquele ato que não aceito ser chamado de ato coragem. O suicídio é sim uma covardia e um grande crime que se comete contra todos que o cercam e o amam.

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  5. Parabéns pelo artigo.Artigo esse que nos faz pensar o quanto temos que observar qualquer ato desesperado de algum próximo que muitas vezes quer nos dizer algo e não conseguimos entender e ajudar.

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