
Nada mais apropriado que o momento político nacional para se falar em escolhas. E para introduzir esta crônica, vou citar a recente frase do economista Danon, em matéria publicada no “Estadão” (1):
“Vale lembrar que a maior virtude da democracia não é a de nos conceder a faculdade de optar pela escolha certa, mas sim a de nos garantir o permanente direito de poder corrigir a escolha errada.” (J.Danon).
Poucas coisas são tão sensatas como reconhecer que não existem escolhas certas, e que, afinal todas envolvem probabilidades. Decerto, quanto mais difíceis as decisões mais na escuridão nossa alma fica. Sem perceber, estamos escolhendo e deixando de escolher a todo momento; e, mesmo sem escolher, somente pelo deixar acontecer, já temos conseqüências da escolha de não escolher. É deste conflito íntimo, por vezes até imperceptível na consciência que o termo “encruzilhada”, típico das religiões afro-brasileiras foi trazido como representação (e reificação) da escolha de um caminho entre pelo menos dois. A verdadeira encruzilhada é na alma. E dela o suor angustiante da dúvida. Como disse um amigo outro dia, “como é difícil atingir a maioria silenciosa!”. Isto porque as nossas decisões cotidianas estão neste silêncio e nesta penumbra, e, de repente, irrompem de tempos em tempos coletivamente em um espanto colocado para todos que “o povo não sabe votar”. Ora, se o povo não sabe votar, comecemos a pensar por pequenas escolhas nossas das rotinas da lide diária. Através delas forma-se natural e sutilmente uma imensa teia holográfica das escolhas (feitas ou não) de nossas vidas e de suas consequências, que nos aproximam ou afastam de outras pessoas. Não tem mágica nisto. Seu reflexo coletivo acaba nos governantes, nas formas de constituição do poder vigente. A permanência da democracia não garante que nosso futuro será melhor, e isto vale em todas as escalas de vida. Mas a permanência da possibilidade de opção nos garante aprender com erros e incentivar os acertos. Não existe decisão que seja absolutamente racional. As mais incertas, contudo, são as absolutamente passionais. Temos exemplos históricos disto, muitos. A Guerra de Tróia foi uma destas ocorrências da humanidade, que, seja mítica ou real, onde a atração e fascínio de uma mulher consciente de sua beleza e sensualidade fez homens derreterem as sinapses de seus córtex cerebrais e elevarem os níveis de testosterona ao Olimpo liberando todo o “id” inconsciente e provocando uma guerra, por causa da mulher. Escolhas. Ou falta delas. Ulisses, o desorientado e problemático rei sem um GPS olímpico da antiguidade grega que aparece no final da Ilíada homérica conseguiu perder-se por 10 anos num marzinho pequenininho de fuleiro, mas que tem a representação simbólica da jornada da alma das diferentes escolhas de nossas vidas, até seu regresso à casa e à família. Um pequeno detalhe de uma escolha diferente, e a teia holográfica giraria para outro destino. Assim foi na Ilíada, e é em nossas vidas. Em uma parábola zen-budista o jovem monge pergunta a seu mestre: “mestre, como posso chegar à sabedoria?”. Ao que este responde: “fazendo boas escolhas!”. “Então, como faço para fazer boas escolhas?” pergunta novamente o jovem discípulo. O mestre o olha e responde: “aprendendo com as más escolhas”.
Por fim, voltando à democracia e aos votos, teremos logo uma grande decisão que, fundamentalmente, será fruto das pequenas, individuais, passionais, imediatistas, racionais, ideológicas, possivelmente burras escolhas. Apenas de pessoas, milhões delas. No Brasil de hoje, honestamente não penso que nenhum dos dois candidatos tirará nosso país da rota de um buraco mais à frente.
Mas, como disse nosso mestre Machado de Assis ao tratar das ilusões do poder e riqueza da vida:
“Ao vencedor, as batatas”.
(1) http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100611/not_imp564898,0.php
“Vale lembrar que a maior virtude da democracia não é a de nos conceder a faculdade de optar pela escolha certa, mas sim a de nos garantir o permanente direito de poder corrigir a escolha errada.” (J.Danon).
Poucas coisas são tão sensatas como reconhecer que não existem escolhas certas, e que, afinal todas envolvem probabilidades. Decerto, quanto mais difíceis as decisões mais na escuridão nossa alma fica. Sem perceber, estamos escolhendo e deixando de escolher a todo momento; e, mesmo sem escolher, somente pelo deixar acontecer, já temos conseqüências da escolha de não escolher. É deste conflito íntimo, por vezes até imperceptível na consciência que o termo “encruzilhada”, típico das religiões afro-brasileiras foi trazido como representação (e reificação) da escolha de um caminho entre pelo menos dois. A verdadeira encruzilhada é na alma. E dela o suor angustiante da dúvida. Como disse um amigo outro dia, “como é difícil atingir a maioria silenciosa!”. Isto porque as nossas decisões cotidianas estão neste silêncio e nesta penumbra, e, de repente, irrompem de tempos em tempos coletivamente em um espanto colocado para todos que “o povo não sabe votar”. Ora, se o povo não sabe votar, comecemos a pensar por pequenas escolhas nossas das rotinas da lide diária. Através delas forma-se natural e sutilmente uma imensa teia holográfica das escolhas (feitas ou não) de nossas vidas e de suas consequências, que nos aproximam ou afastam de outras pessoas. Não tem mágica nisto. Seu reflexo coletivo acaba nos governantes, nas formas de constituição do poder vigente. A permanência da democracia não garante que nosso futuro será melhor, e isto vale em todas as escalas de vida. Mas a permanência da possibilidade de opção nos garante aprender com erros e incentivar os acertos. Não existe decisão que seja absolutamente racional. As mais incertas, contudo, são as absolutamente passionais. Temos exemplos históricos disto, muitos. A Guerra de Tróia foi uma destas ocorrências da humanidade, que, seja mítica ou real, onde a atração e fascínio de uma mulher consciente de sua beleza e sensualidade fez homens derreterem as sinapses de seus córtex cerebrais e elevarem os níveis de testosterona ao Olimpo liberando todo o “id” inconsciente e provocando uma guerra, por causa da mulher. Escolhas. Ou falta delas. Ulisses, o desorientado e problemático rei sem um GPS olímpico da antiguidade grega que aparece no final da Ilíada homérica conseguiu perder-se por 10 anos num marzinho pequenininho de fuleiro, mas que tem a representação simbólica da jornada da alma das diferentes escolhas de nossas vidas, até seu regresso à casa e à família. Um pequeno detalhe de uma escolha diferente, e a teia holográfica giraria para outro destino. Assim foi na Ilíada, e é em nossas vidas. Em uma parábola zen-budista o jovem monge pergunta a seu mestre: “mestre, como posso chegar à sabedoria?”. Ao que este responde: “fazendo boas escolhas!”. “Então, como faço para fazer boas escolhas?” pergunta novamente o jovem discípulo. O mestre o olha e responde: “aprendendo com as más escolhas”.
Por fim, voltando à democracia e aos votos, teremos logo uma grande decisão que, fundamentalmente, será fruto das pequenas, individuais, passionais, imediatistas, racionais, ideológicas, possivelmente burras escolhas. Apenas de pessoas, milhões delas. No Brasil de hoje, honestamente não penso que nenhum dos dois candidatos tirará nosso país da rota de um buraco mais à frente.
Mas, como disse nosso mestre Machado de Assis ao tratar das ilusões do poder e riqueza da vida:
“Ao vencedor, as batatas”.
(1) http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100611/not_imp564898,0.php
Parabéns, mais uma vez pela crônica e pelo tema. Atualissímo! Neste momento de grande importância para a grande Nação Brasileira, temos somente duas escolhas, ou digo, três... É obvio que sob o meu ponto de vista (racional) já optei pela terceira opção, não como saída, mas como protesto, visto que escolher o 45 ou 13, é a meu ver uma pessíma escolha, visto que, o que ambos querem é o poder, sendo que o primeiro quer tomar o poder e a segunda quer perpetuar-se no poder, então como não posso aceitar nem "A" e nem "B", fiquei com a alternativa única que o Governo reserva a nós mortais e silenciosos brasileiros. Recebas o meu abraço frateranal.
ResponderExcluirBão esse. Nunca tinha pensado no Ulisses perdido num marzinho besta, rapaz!
ResponderExcluirMas não é que é mesmo?
Apesar de que tenho uma amiga que se perde até em restaurante. Mesmo que giratório, hehe. Uma vez, não me lembro bem onde, (onde tem restaurante giratório, na Torre de Toronto, talvez?) sentamos numa mesa, ela levantou para se servir, as mesas andaram, ela entrou e rapidamente saiu do outro lado. Precisei mandar sinais de fumaça senão até hoje estaria perdida.
Gostei também da interpretose psicanalítica do mito de Ulisses "a representação simbólica da jornada da alma das diferentes escolhas de nossas vidas, até seu regresso à casa e à família".
É. É por aí mesmo, também posso achar isso...
Agora, o que não gostei (mesmo!) foi o da clarificação da foto da "Oficina das Coisas do Lourenço".
Não pode.
A primeira foto estava ótima.
A foto tem que ser escura, um puta clima de lugar onde está acontecendo alguma coisa proibida, certa mas talvez errada, talvez sexual, talvez criminosa, sei lá, hehe, mas que dá vontade de ir ver e xeretar. Clareando, o "Coisas" perdeu o mistério.
Fica a opinião.
Um abraço,
José Roberto.
Bueno,
ResponderExcluirBela crônica!!!! Agora veja, usaste da mitologia, referiu-se as religiões afro-brasileiras, somente assim para definir uma escolha a respeito se votam numa bruxa ou num vampiro!!!Êita, no Brasil se melhora sempre as coisas, ao invés de dia 31 de outubro ser a festividade do Halloween, será a "Eleição Halloween"! Esta nem Bento Carneiro, Zeca Diabo e outros profetizariam!!!
Um grande abraço!
Fábio Chanes