quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Coisas de Uma Nova Esperança (será?)



INTRODUÇÃO
Recentemente o coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde foi exonerado. Tal fato repercutiu, entre os psiquiatras, como uma boa, longa e esperada notícia. Sob a gestão deste coordenador nós psiquiatras assistimos e fomos obrigados a ser testemunhas da desassistência psiquiátrica nos últimos anos. Em breve colocarei aqui uma resumida cronologia do que aconteceu para o fechamento de hospitais públicos (ou com financiamento de verbas públicas) a partir de uma postura política, teórica e ideológica para uma forma de assistência que viu-se, como em outros países antes de nós, não reabilitar o doente mental grave e acabou por aumentar o número de moradores de rua com problemas mentais, bem como sua mortalidade. Nesta postagem não entrarei em detalhes nem em argumentos. Apenas reproduzo minha carta ao Sr. Ministro da Saúde felicitando-o pela decisão de exonerar o antigo coordenador. Até o momento sua substituição é incerta, e ainda não se tem posições concretas de que algo mudará de fato nas políticas de saúde mental no Brasil. Mas a esperança reapareceu, ainda que tênue. Nas próximas postagens detalharei o processo que ocorreu e ocorre desde a década de 80 mais acentuadamente.



De: Marcelo Lourenço
Enviada em: sexta-feira, 28 de janeiro de 2011 06:42
Para: 'ministro@saude.gov.br'
Assunto: Coordenadoria de Saúde Mental (POR UM ATENDIMENTO PSIQUIÁTRICO DECENTE AOS PACIENTES)

Excelentíssimo Senhor Ministro da Saúde,
Dr. Alexandre Padilha,

Com entusiasmo e esperança recebi juntamente com muitos colegas da Associação Brasileira de Psiquiatria a notícia da recente mudança na Coordenadoria de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Acredito que todos os médicos psiquiatras que trabalham diretamente na assistência do SUS no Brasil estarão igualmente mais esperançosos e otimistas, com a exoneração do Dr. Pedro Gabriel Delgado da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Ele sempre em sua longa gestão ressaltou as “enormes dificuldades a serem superadas”, mas que, para quem as vive cotidianamente, somente pioraram ao longo destes anos todos em que, como comentou o colega psiquiatra Géder Grohs, igualmente em carta endereçada ao Sr. e divulgada na Lista Brasileira de Psiquiatria: “Sempre me pareceu estranho, que uma mesma pessoa fosse o coordenador de saúde mental por tantos anos e governos seguidos. Me perguntava se não teríamos outro brasileiro capacitado para tal...”.
Posso assegurar que esta percepção é a exata correspondência de muiitos psiquiatras (muitos mesmo) espalhados por nosso país, mas que estão atentos ao que acontece, porque sofrem no cotidiano o drama de tentar exercer uma boa medicina dentro de nossa especialidade. Na mensagem eletrônica do exonerado coordenador, ao anunciar sua saída do Ministério da Saúde (mensagem eletrônica circular n. 13/2011 de 24 de janeiro de 2011) ele colocou que “Neste período, compartilhamos importantes êxitos e inúmeras dificuldades...”. Honestamente Sr. Ministro, compartilho integralmente com as inúmeras dificuldades, mas nunca ao longo destes 20 anos compartilhei êxitos na gestão deste senhor. Sr. Ministro, cheguei a implementar e coordenar um CAPs também, e o que se começou com sonhos, hoje é grande pesadelo e fardo. De fato, como ainda colocou o Sr. Pedro Delgado ainda na mensagem de sua saída, “...Conseguimos, através de um trabalho coletivo e persistente, mudar o cenário da saúde mental no país.” Pois bem, Sr. Ministro, de fato ele conseguiu. O cenário piorou, e muito. Ao frasco quebrado recolham-se agora os cacos, com cuidado ao pisá-los, e posso da minha pequena atividade ambulatorial de uma cidade interiorana lhe prestar meus esforços, sem lhe aumentar o espanto por tal magnitude de tarefa. Felizmente, na época de Hércules isto não existiu para ele, mas tenho percebido daqui da roça que muitos amigos psiquiatras e prestigiados professores solidarizaram-se com esta mudança.
A antiga realidade dos chamados manicômios, que, diga-se de passagem, eram em sua maioria pagos pelo próprio Ministério da Saúde, sucedeu-se a da falta de leitos, pacientes graves morando nas ruas e sem assistência sequer emergencial em clínica médica, ambulatórios lotados e sem especialistas, falta de medicamentos, isto citando apenas apressadamente. Os CAPs não têm resolução de problemas psiquiátricos graves. Em outras palavras, as famosas gincanas, barracas de pipas, “corridas de saco”, oficinas de costura, quermesses de finais de semana NÃO previnem a deterioração orgânica que a Esquizofrenia provoca em décadas, e que pode ser documentada em exames de imagem, que somente podem ser interpretados e tratados por médicos. CAPs não reduziram risco de suicídio ou de violência doméstica em famílias de pessoas com doenças psiquiátricas. A isto some-se aos dependentes de álcool e drogas nas ruas que não encontram vagas para internação quando em quadro psicótico ativo ou mesmo abstinência e encontraremos o denominador comum do que certamente chama-se “omissão do Estado”, que, apesar de não ter vindo na gestão do Sr. Pedro Delgado, certamente agravou-se, e muito, no decorrer dela.
Então, Sr. Ministro, como sendo o Sr. um colega médico infectologista, creio que será relativamente fácil apreciar que a doença mental pode, de certo modo, ser vista às lentes de uma doença infecciosa. Isto porque a esmagadora maioria dos doentes mentais não sofrem sozinhos, mas trazem também imenso sofrimento psíquico a seus familiares e próximos. Neste aspecto, a doença mental é sim contagiosa, mas, como outras das literalmente (biologicamente) doenças infecciosas neste país, escaparam ao controle dos órgãos competentes. Como nunca antes neste país, nem nos tempos de Oswaldo Cruz.
É hora de uma guinada. E como membro da Associação Brasileira de Psiquiatria sei que ela estará solidarizada neste propósito.
Com cordiais respeitos,
Marcelo Lourenço de Toledo
CREMESP 72.723
Médico Psiquiatra (TEP)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Coisas do Haiti


Algumas experiências marcam nossas vidas definitivamente, como divisores de águas. E o tempo de um elogio não está em um momento somente, mas está sim no eterno presente. Isto porque um reconhecimento verdadeiro, como um elogio é algo que nunca se perde; grava-se como pintura nas paredes do coração para ficar no devir eterno, soprando aos ventos. A admiração é quando luzes diversas se unem para ficarem mais fortes e luminosas. E é disto, do elogio, que ofereço aqui.
Quando houve o terremoto no Haiti eu também estremeci. Eu tinha amigos lá. Demorou-se alguns dias para se ter notícias consistentes de quem havia passado por ele, ou se perdido nele. Na minha própria comoção fiz minha inscrição junto à Associação Médica Brasileira para ser voluntário e prestar ajuda, que não foi necessária. O que pouca gente sabe é que o Coronel Cysneiros, o Tenente Coronel Alexandre Santos, muitos tantos amigos, estudamos juntos, quando eu fiz parte da ativa do Exército Brasileiro. No meu íntimo não existe um ex-militar; existe um militar da reserva. E eu saí no início ainda da Academia Militar das Agulhas Negras somente porque queria ser médico, e não por não gostar da vida militar. A maioria continuou, e o Cysneiros e Alexandre entre eles. Em uma época em que os milicos estão em baixa, em que um soldado das Forças Armadas do Brasil já não chama muita atenção entre nós cidadãos, eles estavam lá no Haiti neste dia; o Coronel Cysneiros (à esquerda) faleceu no terremoto. Estudamos todos juntos. Não me proponho agora a opinar sobre se o Brasil deve ou não ter ações militares no exterior em conjunto com a ONU; tampouco a falar sobre o que pode intimamente fazer uma pessoa comum como nós todos, um soldado, deixar sua família por ter uma missão a cumprir. Meu elogio é na verdade para espalhar o próprio depoimento deste brasileiro salvo, que como muitos por aí não perdem a vida num segundo, mas que como nem tantos (ou raros) estão dispostos a sacrificá-la por acreditar no seu país e em seus valores. E este valor é peculiar a alguém que já passou pelas Forças Armadas. Ela não serve a governos, mas ao país, à Pátria. Sem também querer revolver rumores arrepiantes e arredios do período recente dos governos militares, foram estas Forças Armadas, desprestigiadas, sucateadas, mal remuneradas, sem efetivo, que ao longo de nossa história mantiveram a unidade geográfica de nosso país, ajudaram a manter nossa língua, e que praticamente forçaram a abolição da escravatura e a proclamação da República.
Mas chega. Segue o que o próprio Alexandre escreveu, narrado na 3.a pessoa. A vivência emocional daquelas horas não podem ser computadas nem em anos, e não me cabe falar do que senti ao ler sua mensagem; é ele quem está na foto ao começo desta crônica. A vocês, suas famílias o abraço meu e de todos ao que passaram pelos portões da EsPCEx e da AMAN. E meu singelo orgulho pessoal de, mesmo distante no meio de tantos jovens que sonhavam ser oficiais há tanto tempo, sinto-me ainda próximo o suficiente para chamá-lo de amigo, pelo elo da caserna que um dia uniu nossa turma, e relembrar de modo carinhoso, mas sem denunciar negativamente, que este tenente coronel teve um singelo, espirituoso, feio e engraçado apelido de “Negusa”!
Continue na Luz, e que Deus lhe abençoe sempre! Nosso país precisa de que todos os heróis do dia-a-dia, que ainda não têm consciência de seu percorrer no mundo, acordem para que nossos filhos possam ver o futuro sem mensagens de fim do mundo, mas de prosperidade.
Lourenço

O SALVAMENTO DO TEN CEL ALEXANDRE SANTOS
No dia 12 de janeiro de 2010, durante o terremoto ocorrido no Haiti, o Ten Cel Alexandre Santos encontrava-se no térreo, parte externa do prédio da ONU, juntamente com outros dois oficiais e um sargento.
Quando iniciou o tremor, cada um tomou um destino, em busca de segurança. Ele e um dos oficiais correram em direção à piscina abandonada. Ao saltarem em um desnível de uns 2 metros que havia, o Ten Cel Alexandre percebeu que não daria tempo de chegar até uma área segura e decidiu encostar-se na mureta, seguindo as técnicas de sobrevivência em caso de terremotos. O outro oficial continuou correndo e, infelizmente veio a falecer.
Encostado na mureta, o tenente coronel acompanhou o desabamento do prédio sobre sua cabeça. Adotou uma posição de proteção fetal e ficou aguardando o pior, pois não acreditava poder sair vivo de uma situação daquelas. Após intermináveis segundos de muito barulho, escuridão, poeira, temor, orações e esperança, percebeu que o desabamento havia terminado e que por algum motivo ele ainda estava vivo e consciente.
Vivo entre os escombros, fez um check-up de seu estado físico e percebeu que conseguia respirar, suas funções vitais estavam normais e que, a princípio não tinha perdido nenhum membro. No entanto não conseguia se mover, estava completamente preso. A única solução seria pedir por socorro, e foi o que fez em português, inglês e espanhol.
Após cerca de 30 minutos começou a ouvir vozes do lado de fora, acima de onde ele estava preso. Identificou-se e tentou guiar, a partir daí, o esforço de busca, mas o local em que se encontrava era de difícil acesso, centenas de toneladas de cimento, tijolos e ferro retorcido sobre sua cabeça dificultavam o trabalho das equipes de resgate.
Foram cerca de seis horas soterrado, alternando momentos de fé, esperança, dores por todo corpo, anestesia de uma das pernas, solidão, tristeza pelo futuro incerto, saudades, lamentação pelo que deixou de ser feito e principalmente pelo que deixaria de fazer junto à sua família. Durante todo esse tempo ocorreram diversos outros pequenos abalos que o deixavam muito temeroso.
Percebeu a chegada de uma equipe de resgate, vinda pela parte de trás, não conseguia enxergá-los, porém podia ouvi-los se aproximando. Ao chegarem, identificaram-se como sendo dois militares bolivianos, o tenente coronel Laredo e o tenente Sanchez. Após um breve contato e análise da situação, explicou que era mais urgente desenterrar suas pernas e assim o fizeram, com suas próprias mãos e um pequeno pedaço de ferro, pois não havia ferramentas adequadas.
Durante cerca de uma hora, permaneceram lá embaixo, junto com o Ten Cel Alexandre Santos, amparando, trazendo esperança e conforto, apesar dos abalos continuarem durante o resgate. Estes dois militares permaneceram inabaláveis na missão que haviam abraçado, o salvamento daquele brasileiro, a qualquer custo.
O militar brasileiro foi orientando os bolivianos de como ir retirando os escombros que estavam por cima dele. Após muito esforço ele conseguiu girar o corpo e fazer um percurso de cerca de cinco metros para fora dos escombros. Finalmente chegaram até a luz, onde pode finalmente ver os rostos de seus salvadores e pode agradecê-los de forma sumária, pois estava com dores e numa maca, mas sua vontade era de poder expressar todo seu reconhecimento pelo feito heróico que haviam acabado de executar.
“A estes dois bravos heróis bolivianos, eu devo a minha vida e sei que nunca terei como agradecê-los a altura, a não ser em minhas preces diárias. Se houve heróis neste desastre, dois deles com certeza são o Ten Cel Laredo e o Ten Sanches, que colocaram suas vidas em risco para salvar um oficial de outra nação, que Deus os abençoe”. Declarou o oficial brasileiro.
ALEXANDRE JOSÉ SANTOS – Ten Cel



quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Coisas das Escolhas


Nada mais apropriado que o momento político nacional para se falar em escolhas. E para introduzir esta crônica, vou citar a recente frase do economista Danon, em matéria publicada no “Estadão” (1):
“Vale lembrar que a maior virtude da democracia não é a de nos conceder a faculdade de optar pela escolha certa, mas sim a de nos garantir o permanente direito de poder corrigir a escolha errada.” (J.Danon).
Poucas coisas são tão sensatas como reconhecer que não existem escolhas certas, e que, afinal todas envolvem probabilidades. Decerto, quanto mais difíceis as decisões mais na escuridão nossa alma fica. Sem perceber, estamos escolhendo e deixando de escolher a todo momento; e, mesmo sem escolher, somente pelo deixar acontecer, já temos conseqüências da escolha de não escolher. É deste conflito íntimo, por vezes até imperceptível na consciência que o termo “encruzilhada”, típico das religiões afro-brasileiras foi trazido como representação (e reificação) da escolha de um caminho entre pelo menos dois. A verdadeira encruzilhada é na alma. E dela o suor angustiante da dúvida. Como disse um amigo outro dia, “como é difícil atingir a maioria silenciosa!”. Isto porque as nossas decisões cotidianas estão neste silêncio e nesta penumbra, e, de repente, irrompem de tempos em tempos coletivamente em um espanto colocado para todos que “o povo não sabe votar”. Ora, se o povo não sabe votar, comecemos a pensar por pequenas escolhas nossas das rotinas da lide diária. Através delas forma-se natural e sutilmente uma imensa teia holográfica das escolhas (feitas ou não) de nossas vidas e de suas consequências, que nos aproximam ou afastam de outras pessoas. Não tem mágica nisto. Seu reflexo coletivo acaba nos governantes, nas formas de constituição do poder vigente. A permanência da democracia não garante que nosso futuro será melhor, e isto vale em todas as escalas de vida. Mas a permanência da possibilidade de opção nos garante aprender com erros e incentivar os acertos. Não existe decisão que seja absolutamente racional. As mais incertas, contudo, são as absolutamente passionais. Temos exemplos históricos disto, muitos. A Guerra de Tróia foi uma destas ocorrências da humanidade, que, seja mítica ou real, onde a atração e fascínio de uma mulher consciente de sua beleza e sensualidade fez homens derreterem as sinapses de seus córtex cerebrais e elevarem os níveis de testosterona ao Olimpo liberando todo o “id” inconsciente e provocando uma guerra, por causa da mulher. Escolhas. Ou falta delas. Ulisses, o desorientado e problemático rei sem um GPS olímpico da antiguidade grega que aparece no final da Ilíada homérica conseguiu perder-se por 10 anos num marzinho pequenininho de fuleiro, mas que tem a representação simbólica da jornada da alma das diferentes escolhas de nossas vidas, até seu regresso à casa e à família. Um pequeno detalhe de uma escolha diferente, e a teia holográfica giraria para outro destino. Assim foi na Ilíada, e é em nossas vidas. Em uma parábola zen-budista o jovem monge pergunta a seu mestre: “mestre, como posso chegar à sabedoria?”. Ao que este responde: “fazendo boas escolhas!”. “Então, como faço para fazer boas escolhas?” pergunta novamente o jovem discípulo. O mestre o olha e responde: “aprendendo com as más escolhas”.
Por fim, voltando à democracia e aos votos, teremos logo uma grande decisão que, fundamentalmente, será fruto das pequenas, individuais, passionais, imediatistas, racionais, ideológicas, possivelmente burras escolhas. Apenas de pessoas, milhões delas. No Brasil de hoje, honestamente não penso que nenhum dos dois candidatos tirará nosso país da rota de um buraco mais à frente.
Mas, como disse nosso mestre Machado de Assis ao tratar das ilusões do poder e riqueza da vida:
“Ao vencedor, as batatas”.
(1) http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100611/not_imp564898,0.php

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Coisas Imperdoáveis

Que coisas podem ser perdoáveis, e quais coisas são imperdoáveis? Trata-se de uma difícil pergunta, mas da qual vez por outra nos deparamos. Começarei por aqui; pedir desculpas às vezes de nada resolve. Certas coisas são de fato imperdoáveis em minha maneira de ser e ver o mundo e a mim mesmo.Uma notícia divulgada na sexta-feira 1.o de Outubro: o governo dos EUA admitiu oficialmente e pediu desculpas por ter feito experimentos indevidos com seres humanos (1). Este era o “Tukesgee Syphilis Study”. Médicos americanos observaram, porém sem promover tratamento, a centenas de homens afro-americanos com sífilis em estágios tardios de evolução da doença, o que pode ter começado em 1932. Além disto, o governo americano confirmou ter infectado com sífilis em experimentos conduzidos de 1946 a 1948, com deliberada violação da ética médica. Os “cientistas” enviaram prostitutas infectadas por sífilis para uma prisão da Guatemala, uma instituição hospitalar psiquiátrica e acampamentos do exército para “testar possíveis novas curas”. Os homens poderiam ter relações sexuais desprotegidas com estas prostitutas, porém sem terem sido informados ou ter consentimento afirmado."Although these events occurred more than 64 years ago, we are outraged that such reprehensible research could have occurred under the guise of public health … we deeply regret that it happened, and we apologize to all the individuals who were affected by such abhorrent research practices.” Estas foram as palavras da Secretária de Estado Hillary Clinton (2).
Esta questão atingiu-me de uma forma peculiar, por eu ser um médico que se considera também humanista. O mundo esteve sempre cheio de tiranos que vez por outra nascem e crescem espalhando sofrimento e sangue por suas mãos. De matadores de primogênitos no Velho Testamento, passando por Vlad Dracula (o Empalador), aos genocidas dos índios americanos, armênios, aos grandes tiranos do século XX estamos cheios de exemplos de gente que propositada e violentamente ceifou vidas aos montes. Sempre procuramos por similaridades entre estes perfis nas diversas tentativas de entender os tiranos. Mas, curiosamente, na história da humanidade, encerrar uma tirania nunca impediu que novas surgissem. E nunca nenhum tirano morto por vontade popular armada ou não fez com que a tirania em si deixasse de existir; ainda de tempos em tempos subsequentemente outros serem humanos novamente tornam-se vítimas de novos ciclos de tirania. Mas estas aqui que mencionei são formas tirânicas que transformaram-se em governos totalitários. O que a notícia trouxe de diferente, embora nem tanto espantoso, é que foi uma forma de tirania executada por agências de governo, em mais de um deles do mesmo país, e patrocinado por uma agência de saúde; não se menciona nenhum laboratório ou empresa da chamada "Big Pharma". Então neste caso não se tem apenas uma pessoa; tem-se uma sequência de pessoas que diluíram sua responsabilidade ética, em governos que sucederam-se, aparentemente democráticos. Alguém deve lembrar-se do filme “O Jardineiro Fiel” (“The Constant Gardener”, 2005) que tratou desse mesmíssimo tema. Não são mais “teorias de conspiração”, como vez ou outra toma conta da mídia. O que aconteceu foi um caso real, envolvendo pessoas inocentes, à mercê de autoridades, que ainda devem estar algumas vivas.
Mas desculpas não adiantam, assim como de boas intenções o inferno está cheio.
(1) http://www.wellesley.edu/WomenSt/Synopsis%20Reverby%20
(2) http://www.mcclatchydc.com/2010/10/01/101473/us-admits-it-infected-guatemalans.html#ixzz11OYPqSWB

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Coisas do futebol, do inconsciente, e do atrevimento irreverente


Um dia ouvi o narrador e comentarista de futebol José Silvério, da Rádio Bandeirantes de São Paulo afirmar: “Eu não gosto de esporte. Eu gosto é de futebol!”. E sou assim também; já nem torço como antigamente, pois é parte da estratégia do que chamo “profilaxia do infarto”; aprecio com entusiasmo e sem exageros, quando é possível; para mim é quase incontestável que futebol situa-se numa categoria distinta de outros esportes. Nenhum suscita tanta magia e arrebatamento, parece ter uma alma própria, que carece aos outros. E costumo às vezes dizer que futebol se joga com três coisas principais: o cerebelo, hipocampo (sistema límbico), e o inconsciente. Pernas, canelas, joelhos são mera extensões. E, nesta colocação minha um tanto ousada, tocamos na integridade emocional e no delicado equilíbrio para se comandar um corpo, que por vezes parece estar presente somente a nossa frente ou na telinha, porém distante, etéreo, dependente das milhares de sinapses entre este hipocampo e o cerebelo, todas estas o substrato para o inconsciente para dar-nos a vida psíquica. As pessoas gostam de falar sobre o “emocional” do futebol, e é verdadeiro; é a percepção intuitiva da manifestação do inconsciente, que na linguagem popular, é o sinônimo da “caixinha de surpresas”, figura lingüística esta repetida centenas de milhares de vezes, todas as semanas. Mas fala-se de modo como se o emocional (inconsciente) fosse um objeto de controle, não um sujeito, um inconsciente que promove a realização dos desejos. Observem as narrações de rádio ou TV. E, quando ele (este emocional inconsciente) promove esta realização dos desejos, abre-se a caixinha das surpresas, como uma nova caixa de Pandora, podendo levar um atleta aos píncaros das glórias, ou ao vale das lágrimas, os torcedores às lágrimas e risos sublimais, ou à raiva e humilhação. Treinamentos de alto rendimento e performance biomecânica, padrões fisiológicos e comportamentais rigidamente controlados, preparações física, técnica e tática, etc muitas vezes acabam por contar pouco, e pior, deixando o jogador reduzido, à mercê de seu inconsciente ou do inconsciente coletivo. Lembram-se do Antonio Fagundes, o Barbosa, goleiro da seleção brasileira de 1950 e que carregou nos ombros e na alma a melancolia eterna de ter sofrido o gol da derrota? Lembram-se de Roberto Baggio, lembrado eternamente por ter perdido o pênalti que deu o título ao Brasil em 1994? Ambos, derrotados pelos monstros de seu próprio inconsciente, embora, tecnicamente, fisicamente e objetivamente impecáveis craques. Fiz estas duas lembranças porque saiu nesta 4.a feira 22 de Setembro na mídia esportiva a demissão do técnico do Santos por conta de ter punido Neymar, ao não escalá-lo para o jogo contra o Corínthians. O rebuliço todo durante mais de uma semana revelou o que o inconsciente coletivo faz com o futebol, e seus atores. Neymar tem se envolvido em situações ora deslumbrantes, ora decepcionantes. Tipicamente um exemplo que, se seu corpo é uma máquina perfeitamente talhada para executar o melhor futebol possível, seu inconsciente não coopera no mesmo sentido neste momento. Na coletividade do futebol, existem outros jogos em campo nos estádios da alma coletiva; o da grana, e representante do poder é o mais aparente. Temos o jogo da ciência: temos que transformar Neymar (e muitos outros), com todo o aparato científico da medicina esportiva em um vencedor. Juntou-se o jogo da ambição. Nisto, que lugar toma o jovem Neymar neste complexo sistema? Ou onde deixa de colocar-se, uma vez que subitamente perdeu o encanto geral e divide-se exteriormente em uma persona odiada ou amada, sinal de sua cisão interior. Mas este é apenas mais um exemplo de divagação, não se trata de diagnosticar alguém que absolutamente não conheço. Ele mesmo afirmou que não desejou agir assim, e retratou-se publicamente. Mas, em se tratando do inconsciente, nem todo desejo que encontra expressão e realização está na consciência; forma-se aquém desta.
A questão que isso suscita no futebol é que há uma complexa rede de relacionamentos, como na vida, dentro da qual cada sujeito ocupa determinada posição em relação ao outro, todas provisórias, e, no momento posso parafrasear Freud, e dizer que temos um mal-estar, seja na civilização, seja no futebol. Que já vinha desde Dunga, meses atrás, desde as políticas da CBF, e quiçá desde sempre. Nós, reles e vorazes torcedores, famintos pela sublimação do gol mais querido, queremos nada menos que a maestria dos jogadores, mas esbarramos nas relações (seja entre atletas, entre estes e técnicos, e entre dirigentes), e esbarramos no capital e no mercado, que, por fim, dá as cartas finais. E este domínio que acaba por ser o causador de nosso mal-estar; não está mais em campo, virou uma figura fantásmica, de bastidores, do inconsciente. A vivência humana do jogador, do craque, do matador, do driblador, daquele que rasga, chapela, que dá banho, que beija a camisa, que enfim, leva-nos ao delírio coletivo, esta é só mais uma figura, ou no linguajar futebolês, “peça de reposição”. Ponha-se um novo rei! The King is dead! Long live the King!
Pelé, Zico, Falcão, Rivelino, tantos outros parecem ter se despido desta persona. Resta saber se Neymar conseguirá. Enquanto nós permaneceremos os eternos amantes, no devaneio das pulsões em busca do prazer, da poesia utópica, da loucura, do gol como um gozo psíquico coletivo, e, enfim, como cantam os fiéis: “Aqui tem um bando de louco! Louco por ti Corínthians!”.
A razão? Ora, a razão não tem graça nenhuma nisto...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pensamentos e devaneios sobre suicídio III


Em 2007 levei ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria um pequeno trabalho sobre suicídio nas cidades de São Roque e Mairinque (SP). Como são cidades menores que 100mil habitantes, estes dados não são computados pelos censos gerais. Neste levantamento, algumas coisas interessantes, pude perceber, e relacionam-se à notícia publicada de que 9000 pessoas cometeram suicídio em 2008 no Brasil (parte I deste tema). Além dos índices não terem uma abrangência total sobre a população, uma vez que somente centros populacionais maiores são computados, há também um outro ponto relevante: muito provavelmente o número de suicídios é sub-reportado, como se supõe ocorrer em todo o mundo. Quando se refere a este assunto a tendência sempre é o predominar do silêncio. Lembremos que seguradoras e muitos planos de saúde não dão cobertura para as tentativas de suicídio, ou não pagam o sinistro do seguro de vida para a pessoa que suicidou-se. Se você nunca leu suas apólices de seguro de vida ou de plano de saúde veja e comprovará por si mesmo. Uma vez muito tempo atrás tive um paciente que tentou matar-se com a ingestão de medicamentos, e ao dar entrada em um importante hospital privado de São Paulo, a família foi informada que o plano de saúde não cobriria a internação; isto fez com que houvesse um delicado arranjo para que o médico que o atendeu colocasse um diagnóstico de uma intoxicação de modo que ele pudesse ser tratado ali, e eu através de bilhetinhos ou telefonemas ao colega dava a prescrição a ser realizada para evitar suspeitas por parte de auditores. Não penso que seja incomum surgir outros diagnósticos no atestado de óbito em que se escreve que a pessoa morreu, mas não se menciona o suicídio, e isto tem origem diversas, seja pelo temor ao tema, o estigma deixado, despreparo ou receio de equipes médicas em dar este diagnóstico ou mesmo em tratar a pessoa desde sua chegada ao pronto-atendimento hospitalar quando isso ocorre. Mais além, tem determinados casos que envolvem acidentes, ou morte súbita e domiciliar que passam ao largo disto. Simplesmente muitas vezes não dá para saber ou é necessário um detalhamento de detetive.
No trabalho que mencionei, fiz um levantamento do número de suicídios durante o período de 2000 a 2006 naqueles dois municípios, e a população dos dois na época não chegava aos 100mil habitantes somada pelos dados do IBGE, e naquele período houve 46 mortes por suicídio. O fato mais curioso é que do total apenas 3 pessoas faziam tratamento em ambulatórios de saúde mental do SUS, e nenhuma das demais realizou tratamento privado. Muita gente morreu sem estar assistida seja por um psiquiatra, seja por um psicólogo. Outras tantas estiveram sofrendo também e à margem de assistência.
Este levantamento ressaltou a premente necessidade de programas em municípios de pequeno porte para detecção de população de risco de comportamentos que podem levar a auto-agressão. Mas de forma alguma isto pode ser considerado um fator a ser pensado isoladamente, uma vez que circunstâncias como comorbidades psiquiátricas, outros tratamentos e doenças clínicas, insuficiências de saúde pública e de educação, violência urbana e doméstica, abuso e dependência de substâncias (lícitas ou não) caminham a largos passos e de mãos dadas ao evento do suicídio, que aparece, enfim, sendo apenas a boca do funil de um problema não somente psiquiátrico, também de saúde pública e social. Não creio hoje ser possível em um país como o nosso, com problemas estruturais tão complexos em sua sociedade, pensar sobre programas de prevenção de suicídio unicamente. Como em outras tantas coisas.