quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Coisas do "Au Revoir Mairinque"


INTRODUÇÃO
Eu deixei meu trabalho no município de Mairinque, SP, em Março de 2009; nunca me arrependi. Tampouco arrependi-me de ter exercido (e dela sair) a chefia de saúde mental em São Roque, município vizinho, onde participei da criação e chefiei o CAPs local. O artigo abaixo foi publicado no jornal “Folha de Mairynk” em 18 de Julho de 2009; foi por puro esquecimento que somente lembrei-me dele agora. Ou talvez por ato falho. Por várias vezes pude afirmar amiúde com alguns amigos: “sabe quando Mairinque terá novamente dois psiquiatras pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP em seu quadro de funcionários? com o mesmo salário de outro médico sem tanta especialização? Nunca...”. O segundo era meu colega e amigo Dr. Jorge Henna. E isto foi dito com muita naturalidade, sem também tom profético; tomara até que eu erre. De qualquer modo acho que o artigo merece estar aqui no meu blog. Eu não desisti de trabalhar lá; apenas fui convencido por uma chefia de saúde burra e incompetente, por uma administração municipal semelhante, de que não valeria mais a pena desperdiçar suor por tão pouco, inclusive o salário.
Mas segue o artigo, que apesar de mais de dois anos, continua atual, e muito.

“Au Revoir”, Mairinque!
"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.”
Eclesiastes, 3:1-2

Foi em 1998 que comecei a trabalhar em Mairinque; e concursado desde 2000. Ali, no posto de saúde da Vila Sorocabana.
Preciso avisar, contudo: estou saindo. Muitas coisas mudaram nesses anos, e foram extremamente produtivos. Já não sou visto apenas como “médico de loucos” como costumava ser o jargão popular aqui, compartilhado até por gente culta. Isto é muito bom. Mas o serviço aumentou sua demanda a ponto de se tornar ineficiente. Apesar das aparências, esta ineficiência não foi totalmente um reflexo de políticas locais. Não. Faz parte do que ocorre com a Psiquiatria no Brasil todo. Podia ainda ter sido melhor aqui em Mairinque, entretanto.
Temos no município um serviço que não é autônomo, e não é planejado a longo-prazo, sem articulação desejável com outros serviços médicos dentro do próprio município ou fora dele, e sem consistência interna em suas atividades. Quando escrevo aqui sobre consistência interna especificamente faço referência ao fato do ambulatório de psiquiatria ter sido conduzido apenas por mim enquanto médico especialista nos últimos anos. Nem cabe aqui mencionar colegas que chegaram, olharam, e não ficaram, com a lacônica frase “não vale a pena!”.
Nestes anos sempre fui muito “reclamão” (provavelmente meus pacientes nem saibam disso) com minhas chefias, acreditando eu que persistir na exigência de melhores condições de trabalho e tratamento fosse apenas parte do necessário e minimamente aceitável. Talvez por isso fosse considerado chato demais, ou sério demais.
Mas não acho aceitável permanecer só neste serviço. Não acho aceitável submeter meus pacientes a retornos extremamente prolongados, consultas sem tempo adequado para a entrevista, simplesmente porque não há outro médico psiquiatra para trabalhar aqui. Não acho aceitável ter que ficar modificando tratamentos simplesmente porque os medicamentos estão em falta constante. Não acho aceitável não poder contar com uma equipe mínima de profissionais a dar apoio ao tratamento psiquiátrico em suas várias formas.
Sou um bom médico, e um bom especialista. Nisto não há nenhuma, absolutamente nenhuma soberba em reconhecê-lo em mim mesmo. Por isso também, não acho aceitável não poder exercer uma boa medicina aqui. Estou sendo ético com os princípios de minha profissão, com meu juramento.
Todas as dificuldades somaram-se nesses anos ao fato de que a psiquiatria lida com doenças crônicas e persistentes, muitas incuráveis e incapacitantes, como esquizofrenia e transtorno bipolar, nossa eficiência é de fato baixa. Mas não mais baixa que outras especialidades médicas. Mas a psiquiatria não é uma especialidade como as outras, envolve particularidades da vida íntima de cada um, o sofrimento invisível e não detectável na maioria de exames. A doença mental não é uma coisa isolada. Está em todos nós. Ela quase é contagiosa, pois acaba por afetar toda a família também. Ninguém sofre de uma doença mental sozinho.
Assim, apesar de eu ter permanecido nessa longa jornada ao serviço dos pacientes de Mairinque, cansei. Cansei de ser “reclamão” e de ouvir “não” para solicitações que são corretas e necessárias, ou de ouvir desculpas infantis de que “as dificuldades são muitas, mas serão resolvidas”. Claro que eu sei que as dificuldades são muitas. Afinal de contas eu estava no “front” da batalha. Cansei de ser chato e cansei de esperar por atitudes sérias e que estão acima da minha esfera de atuação. Cansei também esperar mudanças da vontade política na saúde a cada gestão que se passa, com as coisas sempre sendo feitas da mesma maneira e as cores desbotando pela falta de cuidado.
Cansei de ver gente aparentemente qualificada na administração pública municipal considerar doenças mentais como “frescuras” ou “fraqueza de caráter”, ou “falta do que fazer”, vindo por vezes mesmo de chefes de departamentos ou até de colegas médicos, mas estes, felizmente estes casos isolados.
Por estas razões estou saindo, e com a amarga melancolia de não ter realizado o que desejava a longo prazo. E não por falta de capacidade ou persistência; foram 10 anos, afinal.
“Au revoir”, Mairinque!
Jamais me esquecerei das pessoas que deram apoio trabalhando ao meu lado; todas elas. Principalmente, guardarei eternamente a lembrança de meus pacientes a quem procurei atender da melhor maneira possível, e seus familiares. E levarei meu agradecimento por todas estas pessoas que procuraram minha ajuda médica por todos os meus dias. Guardarei a honra de ter podido ser testemunha e confidente de tantas e tantas histórias de emoções, de vida. Elas me ensinaram mais, muito mais sobre o ser humano do que pode ser aprendido em livros ou nas faculdades, ou nas igrejas. Obrigado aos meus pacientes que também ensinaram-me não somente sobre o merecimento da vida ser vivida, mas sobre a superação dos obstáculos.
Ensinaram-me a ser humilde e perceber minhas limitações humanas e nossa pequenez diante do universo.
Agora é hora de levantar e partir, deixar a cidade, sem mais desejo de um pouco de conforto profissional. Partir em busca de outros desafios, em algum lugar qualquer.
“Au revoir”, Mairinque!
Marcelo Lourenço de Toledo
Médico Psiquiatra
Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, analista junguiano
Médico pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Cosas de las Crónicas de Buenos Aires III



Continuación en los días siguientes.
Bueno, vamos às notícias do congresso; domingo cheguei cedo ao local da convenção, o Hotel Sheraton; ao redor de 8h30min da manhã. Assustei-me e fui pego de surpresa: achei que facilmente faria meu registro final (já tinha feito o preliminar pela internet); a fila para credenciamento, porém, estava na porta de fora do enorme hotel, e ainda dava voltas e voltas por dentro das instalações (!) como os bonecos de dragões chineses em festas. Muita irritação e bufadas de raiva dos presentes contra os organizadores; o fracasso de logística foi total, total, total. São quase 13 mil participantes (a maior parte psiquiatras), de todos os locais desta pequena bola azul do universo; vi muitas mulheres islâmicas de burca; orientais de todos os tipos de olhos puxados diferentes (sempre rindo e falando como se estivessem brigando...); escandinavos com quase dois metros de altura ao lado de baixinhos da América Central com cara de índio... saí pouco depois das 12 horas; quase 2 horas e meia em uma fila, coisa que nunca ocorreu em um congresso desde que me conheço como congressista (e vou fazer 21 anos de graduação...); troquei muitas idéias com um cara da África do Sul que estava na minha frente da fila, mas o papo sobre psiquiatria não pôde continuar, pois à frente dele havia um argentino, e logo um amigo dele, e logo mais outro, todos rindo e trocando beijos e abraços, sem respeitar filas, e, sem perceber, quase 10 ali... (e como fazemos isto, não?) e mais outro depois; uma autêntica reprodução, como se fossem bactérias vistas ao microscópio, não somente ali, mas se repetindo em outras partes da enorme fila com toda certeza; o tal colega sul-africano começou a ficar revoltadíssimo, e quando vi que o cara queria sair na porrada mesmo com los Hermanos argentinos furando fila, perguntei calma e ingenuamente a ele se queria que o levasse para o atendimento médico do hotel, “apenas para verificar sua pressão arterial...” (falávamos em inglês), mas negou e não quis ir; pelo menos o levei para um café, com a permissão de “Bob” (apelido mental apenas meu) do fulano atrás de nós, outro africano, negrão mesmo, angolano, cabeludo, cheio de colares e mais tranquilo que Bob Marley depois de tragar um baseado; com seu mp3, roupas coloridas e tênis furado; conversamos em um português estranho nestas horas de fila e, pasmem, a dita figura é professor de uma universidade lá em Angola; junto a ele um indiano elegante e perfumado demais com um turbante e uma jóia no topete dele; devia ser um brâmane, pois a maioria dos médicos indianos são brâmanes, mas não ousei perguntar. Depois desta “via crucis”, resolvi voltar ao hotel. O material distribuído pelos US$ 300 de inscrição para os participantes é de um mau gosto atroz e a qualidade lamentável. A tradicional mala que era “até que bonitinha” com bastante material e livros gratuitos (mas nem tanto, foram pagos na inscrição...) foi substituída por algo que parece estas sacolas ecológicas de supermercados grandes do Brasil; enfim, não consegui entrar por mais filas e ver o que ocorreria na semana; cansado, voltei caminhando na direção a Puerto Madero e fui longe até a entrada de “ La Boca”. A confusão no local da convenção lembrou-me o igualmente confuso espaço do congresso brasileiro de psiquiatria que foi em Belo Horizonte, anos atrás. Apesar desses contratempos, assisti boas apresentações nestes dois dias; muitas vezes em pé; das quais valem a pena (embora seja condição não necessária o sofrimento passado). Encontrei Professor Berrios, do Reino Unido, um dos maiores psiquiatras do mundo hoje ainda vivo, e surpreendeu-me que conseguiu distinguir-me na multidão de seu auditório de conferência e foi me dar um aperto de mão (e eu estava somente como um assistente...); fiquei constrangido até, dada a importância mundial dele (mesmo desconhecido para os que estão lendo...). O mesmo posso dizer de ter encontrado novamente com Norman Sartorius, que conheci e junto com pessoas da OMS almoçamos quase durante a tarde inteira também em um inverno na Suíça; e este é “o cara” responsável pela implantação da CID-10 no capítulo das doenças mentais no mundo todo; isto foi em Cranz-Montana no ano de 1996; aconteceu que apresentamos um trabalho no mesmo simpósio (por coincidência) e este o simpático velhinho croata também conseguiu lembrar-se de minha apresentação sobre esquizofrenia em minha pesquisa na época! Que coisa! Mesmo eu estando afastado dos círculos acadêmicos mais importantes... no final do dia da segunda-feira, quase 18h30min, ainda havia grande fila; nem tão grande como no domingo e a manhã, mas não era desprezível.
Enfim, como disse meu amigo Walmor, todo este congresso começou como “um legítimo tango, trágico, mas com momentos de enlevo”.
Desta maneira, creio que um novo congresso da WPA (Associação Mundial de Psiquiatria), vinculada à OMS, na America do Sul será difícil fora do Brasil; do que lembro do anterior e primeiro congresso aqui nas bandas do hemisfério sul, o congresso do Rio em 1993 não houve este problema com organização.

Cosas de las Crónicas de Buenos Aires II

Dias seguintes (19 e 20/09)
E Ramón Carlos, o motorista que levou-me do aeroporto ao hotel estava certo... a capital porteña está cheia de bolivianos, venezuelanos, paraguaios e peruanos; quase nenhum deles com trabalho formal, ou quando os têm são varredores de ruas, limpadores de vitrines das lojas famosas, entregadores de comida em geral e pedintes; a maior parte se vê que não trabalha; as ruas de compras mais famosas, como a Calle Florida, Avenida Corrientes, Córdoba, Calle Lavalle e Suipacha estão abarrotadas de camelôs estendendo seus lençóis pretos nos passeios e colocando bugigangas a vender; ou vendendo café e churros; uma versão argentina de nossa 25 de Março de São Paulo. Na verdade, nem se pode dizer se é piorada ou melhorada. Os imigrantes, como em toda a história, buscam garimpar seu espaço para maior paz e prosperidade. Entre estes que se vê claramente não serem argentinos, crianças descalças e mal cuidadas; tocadores de flautas indígenas peruanas competem por cantadores e dançarinos de tango de rua; uma barulheira; dos argentinos nas ruas, contudo, vê-se também que têm ocupações mais diferenciadas (um pouco) e oficiais: donos de bancas de jornais e tabacarias, floristas são os mais comuns que se encontram nas ruas. Como escrevi ontem, estou hospedado a um quarteirão da Plaza de Mayo, da Casa Rosada e da Catedral de Buenos Aires; estes estrangeiros vendem até comida para pombos. Domingo, após as atividades preliminares do congresso fui à feira de San Telmo (umas 18 horas); fiquei me perguntando como pode caber tanta porcaria numa feira: óculos quebrados, máquinas fotográficas completamente estragadas, talheres velhos (e nem são de prata...) caixas de fósforos de hotéis e restaurantes que talvez nem existam mais, navalhas velhas, escovas de dente usadas, sapatos usados sem o correspondente par, e, pasme, partes de dentaduras e dentes de implante (“de gente que já morreu”, eu pensei); nada achei mesmo de fosse interessante para um presentinho; na rádio de notícias (Continental) em meu mp3, protestos dos comentaristas econômicos com a alta do dólar no Brasil, que repercute no Peso argentino, e fará da chegada primavera e verão mais cara aos argentinos para ir a Santa Catarina... além disso, muitos comentaristas econômicos da mídia em geral criticam o fato de que a Argentina está por demais dependente do Brasil, em uma relação comercial deficitária para a Argentina (obviamente, súper-avitária para o Brasil); ouvi apenas de dois economistas daqui dizerem: “Se a Argentina não comprar do Brasil, vai comprar de quem? Chineses? Europeus? Nós argentinos é que não temos nada e precisamos importar; do Brasil ainda é mais barato...”. Isto me pareceu de bom senso, mas como eu absolutamente nada entendo de comércio exterior, nada a opinar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cosas de las Crónicas de Buenos Aires



Entre 18 a 22 de Setembro deste ano ocorreu na Argentina o Congresso Mundial de Psiquiatria; resolvi colocar no blog algumas das coisas que vivenciei; não propriamente do conteúdo do congresso, que deixarei para depois, mas do estar lá, na capital portenha.

O primeiro dia, sábado (17/09)
Chegamos rápido e tranquilo a Cumbica; como podia se esperar pela hora; Getúlio (meu sogro) comentou que se o Gui estivesse ali eles poderiam assistir, depois de deixar-me no aeroporto, ao treino do Corínthians para o jogo de amanhã (domingo); ali pertinho mesmo. Eu realmente estava mais preocupado com o embarque, pois não consegui fazer meu “check-in” pela internet e foi somente menos de 12 horas antes de meu vôo que pude ver que de fato ele existia, mas não estava confirmado; pelo menos não sou ansioso e pude dormir bem. Na época de meu pai viajando todo mês para a Argentina e USA não sei como ele pensava (EU era criança, e ele, acho que era mais novo que eu hoje) ... mas, com certeza preocupações não faltavam. Ainda me lembro da primeira vez que cheguei a Buenos Aires, em 1976; depois vou relembrar, escrever e em colocar em palavras isto.
Ao fazer o “check-in”, logo cedo ainda tive um problema; por sorte era cedo e sem correr risco de perder o vôo... meu sobrenome estava trocado por TOLADO; um pequeno erro de digitação de alguém que nem se saberá jamais o autor (nem ele mesmo), mas que causou uns 45 minutos ou mais de espera no balcão de Aerolineas, passando a dúvida de mão em mão até chegar à Polícia Federal (fazer aquela checagem “cara-crachá-cara-crachá-cara-crachá” no passaporte, mensagens trocadas em rádio com superiores, e decidir finalmente que eu era eu mesmo e que aquilo foi apenas um erro). Minha palavra de fato, ao vivo, dizendo que eu sou quem eu sou de nada valeu. Como mais tarde me disse um amigo, fiquei mesmo é aTOLADO no aeroporto; mas resolvida a querela, fui a passear, fazer xixi, comprar um caça-palavras e chicletes, e tomei um café; absurdo de caro e absurdo de fraco com pão-de-queijo murcho; nada de estimulante. Pero, sin embargo, finalmente o embarque. O “duty free-shop” de São Paulo ainda continua meia-boca; poucas coisas a comprar, com o hipnotismo implícito do “comprem agora! Pois pagamos muitos impostos, e se arrependerão depois!”; por detrás de pseudo-promoções, nem tão atraentes e eram quase todas voltadas para as mulheres (só podia ser...) e apreciadores de tecnologias portáteis. Mas, o pior, tudo o que eu achei interessante para a Roberta custava mais de US$ 1.000. Será que sucumbi aos poderes do mercado neo-capitalista? Creio que nem tanto; apenas sinal de que ainda continuamos subdesenvolvidos, apesar dos apelos dos governantes PTistas; não pelo preço em si, mas pela afetação implícita e subliminar de que somos todos pobres, mesmo os que viajam ao exterior, pensando em fazer vantagens, apesar de toda a propaganda, nos reais termos da “propaganda” que as alemães fizeram na 2.a GM. Acho que isto se repete desde muitas décadas...
Después, um vôo tranquilo, ainda que em um avião que eu vi que era velho (porém, o verbo deveria ser no presente mesmo pois continuará a voar...). Mas Boeing é Boeing, tanto como Jeep. Sem sacudelas ou turbulências; apenas um sujeito umas três ou mais vezes mais obeso que eu a roncar muito alto a meu lado e ocupando duas poltronas, e, perdão, flatular é pouco; o cara cheirava merda mesmo, e eu nem sabia neste momento que esta era apenas a primeira, e menos intensa que me aconteceria ainda...
Quando cheguei, ao levantar de minha poltrona onde mal podia me mover vi que o mais gordo que eu conseguiu quebrar meus óculos de leitura... joguei a tralha fora e precisei gastar uns trocados em um novo anteojos no “duty free-shop” de Buenos Aires para poder ler e até escrever agora... na saída encontrei de pronto o motorista dizendo que ia fazer meu translado, tudo de conforme combinado. Ramón Carlos és su nombre, e pilotando um Citroën C4 nuevo (2011) disse-me que é peronista, falou muito a respeito das próximas eleições na Argentina; ficou também dizendo que a Argentina está contaminada de paraguaios, peruanos e bolivianos e introduzir uma “ola de horror”, mendicância, prostituição, tráfico, trabalho escravo e etc... coisas que todos sabem que existe no mundo todo, mas do modo como falava talvez somente existisse ali mesmo. Coisas que precisarão de atitudes de governantes de fato com comprometimento não com partidos ou alianças, mas com interesses supra-nacionais. Isto será raro. Se sequer existirá.
O caro motorista ainda ficou puto da vida pois eu disse que queria assistir a uno partido de fútbol de Boca Juniors... e ele começou a xingar pois ele torcia para o River Plate, rebaixado à segunda divisão (série B para nós) do futebol argentino.
Cheguei no hotel: então disseram que fizeram “un cambio”, pois aquele meu hotel reservado estava lotado, e (olha que coisa de código de consumidor!), fui trocado de um hotel de três estrelas de U$ 80 a diária para um hotel de cinco estrelas com diárias de US$ 190, a mais barata. Não fui ainda checar quanto custa meu apartamento, mas apenas saber que saí ganhando me deixou alegre, com uma jacuzzi en acomodación! Pero, mierda, vou ficar a assistir simpósios... não dá tempo para estas coisas...
Bom apartamento, cama grande, sem ficar com frio nos pés; tomei banho e saí para uma caminhada; estou hospedado a dois quarteirões da Casa Rosada (que nem está tão rosada assim), uns cinco de Puerto Madero. Mais 45 ou 50 minutos de caminhada para o centro de convenções; fui até a orla de Puerto Madero; então veio la segunda mierda...
Uma PALOMA, pequeña y desgraciata palomita, cagou na minha cabeça; pequena paloma, pero enorme cagada... pareceu um ovo frito em tamanho; sujou-me todo; e aquilo tem um odor fétido, feio, horrível. Deu nojo, náuseas.... sério!
Eu estava meio longe já... tive que voltar ao hotel, com todas las personas a mi redor mirando-me com ares de asco, fedendo cocô de pomba... cagou na cabeça, nos meus óculos, na minha camisa e casaco, em minha mochila... voltei. Banho e roupa nova. Fui ao Carrefour na Avenida 9 de Julio (6 quarteirões) para comprar produtos de limpeza para a mochila... ela é fundamental, Swiss Gear, merece... e um desodorante também.
No caminho de volta, quase 8 da noite, fiquei pensando sobre os meteoros caindo sobre nosso pequeno planeta... la mesma cosa que a cagada da pomba; sobrevivi ao impacto. Sentei um pouco nos degraus da catedral de Buenos Aires. Como tinha muitos mendigos e não tinha eu percebido antes, logo acabei saindo. Amanhã, domingo, vou no caminho procurar alguns sebos de livros antigos, ver o Plata, e começar o congresso de manhã ainda.
Buenas noches! Isto foi ontem.
Saludos,
Lourenço

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Coisas dos Canaviais


Verde canavial cresce no sentido vertical Ao desejo puro de aguardente Cobre o solo como vertente que revigora Sinuosas as folhas balançam no sublime aconchego Alcançar a cana e cortá-la Sugar do açúcar o ensejo Ser a ferramenta de conquista E entre as saias de roda e a enxada, Doce é o caminho do amor.


Diana Balis


Nada é fácil no canavial. É comprido e largo; misterioso, não dá para alcançar com a vista suas dimensões. Quente, úmido, por vezes infernal. Assim é a vida. Sempre teremos metáforas pobres para exprimir o viver. Como experiência única e subjetiva, partindo de quem está vivo e pode expressar-se de algum modo em algum momento, todas as menções e alusões a ela somente a empobrecerão. Mesmo assim costumo dizer aos pacientes vez ou outra que viver é como andar num canavial: naquelas ruelas estreitas de pés-de-cana altos, todas quadradinhas mais ou menos simétricas, mas nada matemáticas, as referências podem ser facilmente perdidas, e, ali dentro do canavial, consequentemente facilmente nos perdemos; as duras e longas folhas da cana cortam e machucam muito, como a vida. E tem muita cobra; escondidas ou não sempre são perigosas e é preciso estar atento. Nos momentos de brisa ou vento o farfalhar dos pés das canas chegam a dar impressão de sussurros, vozes mal compreendidas de uma língua desconhecida e misteriosa; a linguagem de nosso inconsciente. Precisamos estar bem protegidos no canavial: roupas de mangas compridas, chapéus, panos para cobrir o pescoço; nossa alma e a vida são como um grande canavial. Grande o suficiente para receber famintos e alimentar o amor; portas e caminhos estreitos aparentemente para solitários. Sombras frescas onde se menos espera. Inspiração, coragem, coração apertado. Tudo há no canavial. Aqui há momentos onde pode-se relaxer, e, com algum esforço, encontrar um lugar seguro onde uma pequena escada pode ser aberta, e então observá-lo do alto. Por incrível que pareça, olhá-lo do alto é conectar-se a ele mais profundamente, contemplativamente, como um monge em meditação. Desta pequena mas abrangente o suficiente para enxergar alguns limites, observar pontos fixos na paisagem, que representam nossa biografia imutável (eventos passados, pais, família), valores de infância e família, crenças, onde há morros, onde há vales. Onde tem ninho de cobra... Deste alto a medida é maior e podemos ver onde nossos caminhos formam círculos viciosos ou virtuosos, onde há luz e sombra em nossa alma. Assim é o canavial da alma do alto. E este é o trabalho da psicoterapia: abrir a escadinha e ajudar alguém a subí-la. Mas isto não é um patrimônio da psicoterapia. Não. O autoconhecimento é um patrimônio de todos, de toda a humanidade. Todas as escadas são válidas, e cada um tem a sua de preferência Todo método para auto-conhecimento, seja terapia, meditação, religiosidade, filosofia, etc são escadas que podem ser abertas. E assim é a jornada, fechar a escada e descer para a lide diária. Se implica em um estreitamento da visão, ao mesmo tempo também se adquire uma cartografia mental de nossas dimensões e limites, que gradualmente se amplia em possibilidades e direções, o que estamos ganhando e procurando diariamente, por onde não se deve ou deve-se ir. Podemos olhar do céu, mas nossos humanos pés precisam tocar o chão. Assim deixo hoje este pequeno recado; que ele ajude cada leitor a estender sua própria escada, torná-la estável, e também leve. Descobrir que o estar perdido é o primeiro passo para encontrar as saídas. Andar no canavial necessita de complacência, persistência e determinação. E quando os caminhos estão cerrados, abri-los. Na faca mesmo. Viver não é preciso, como Pessoa já o disse.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Coisas do Crack, pequenas, pequeninas pedras



“Quizás te diga un día que dejé de quererte, aunque siga queriéndote más allá de la muerte; y acaso no comprendas en esa despedida, que, aunque el amor nos une, nos separa la vida.”
José Angel Buesa



Há quase dois anos o jornal britânico “The Economist” publicou uma reportagem a respeito da “guerra contra as drogas”. Eu tinha esta matéria guardada numa daquelas pastas de arquivos digitais como “coisas que quero ler um dia, mas não sei quando”, e lá ficou sem ser lida até há algumas semanas atrás quando deparei-me com outras matérias sobre o assunto. O curioso da matéria (1) levou-me à lembrança a observação quase comum que o ser humano é um animal que mesmo com a repetição da experiência demora por aprender, e insiste em erros (ou, como disse Joelmir Betting recentemente sobre seu time de futebol de coração: “... afinal, se um economista pode quebrar um país, porque um economista não quebraria o Palmeiras?...”). O fato citado da reportagem é que há um século houve uma reunião de diplomatas na China para tentar estabelecer a proibição do comércio de ópio. Cem anos atrás, repito. Em algumas décadas pouco antes disso, a Inglaterra fez uma guerra contra os chineses porque se achavam os ingleses no direito de vender a mercadoria (ópio) lá na China. Como são humanistas estes britânicos... aqui fomentaram a escravidão e quando esta não mais dava lucro... a combateram!).
Obviamente a reunião diplomática terminou em pizza, ou melhor, para o lugar e época, em algum protótipo de “China in the Box” do século XX em seu início, com provavelmente uma belíssima carta de intenções.
Da geração da minha época de eu-criança pouco se sabia sobre drogas, e elas pouco ainda existiam no cotidiano das pessoas como hoje. Derivados de ópio existiam e eram comercializados como medicamentos, como medicamentos em pastilhas ou gotas com cocaína para dor de dentes e de garganta. Mesmo quando iniciei minha residência médica há 20 anos os dependentes químicos em atendimento eram em sua imensa maioria dependentes de álcool. Cocaína era uma droga cara que foi barateando-se pelas décadas, cada vez mais misturada com talco ou pó de mármore, e a maconha ainda era uma coisa relativamente pouco comum, muito revestida pelo glamour decadente do pessoal ripongo, ex-geração paz-e-amor. Tem coisas que a gente não precisa se envergonhar de admitir publicamente: eu era “cuzão” demais para fumar maconha, e o medo foi minha vantagem depois. Meus neurônios que o digam, pois pretendo ficar com eles por mais uns 50 anos, se der.
De fevereiro de 1909 em Xangai a hoje, no Brasil e no mundo, muitas outras proibições de drogas que alteram o humor e o comportamento se seguiram; novas substâncias e que causam dependência surgiram, ou foram modificadas. Em 1998, a Assembléia Geral da ONU os países membros se comprometeram a alcançar "um mundo livre de drogas" e para "eliminar ou reduzir significativamente" a produção de ópio, cocaína e maconha até 2008 (2).
Sarcasticamente, num humor muito negro, dá para dizer que esta coisa só perde para o sonho do Corínthians em vencer uma Copa Libertadores. Não acredito em um mundo “livre de drogas”. Sejam lícitas ou ilícitas, este critério dificilmente pode ser levado em conta no que se refere à prevenção. Mas este artigo do crack tem bastante relação com minha postagem anterior, com a carta ao ministro da saúde. Em um apanhado de notícias na imprensa sobre a assistência ao doente mental nada temos de animador. Fui até entusiasta demais em minha carta, mas ao pensar melhor, não tivemos nenhuma mudança das políticas da saúde mental e da assistência psiquiátrica; nem teremos. Tivemos somente uma mudança de coordenação, mas a ideologia continua a mesma. E ainda há menos de um ano houve o lançamento do Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas (3). Nem bem lançado, mal saiu do lugar. De acordo com matéria da Agência Estado, no primeiro ano de sua execução esperava-se investir 90,3 milhões em 2010, mas foi gasto o valor de 1,9 milhões até Dezembro de 2010 (4). É brincadeira...
Crack, em toda a extensão de sua rede potencializa a violência e a sensação subjetiva de estar potencialmente vítima da violência (5). Mas não está tendo a abordagem devida. Causa dependência, uma doença do cérebro. Frita o cérebro, e ovo frito não volta a ser “desfrito”; o dano é permanente. Alguns piram, muitos são assassinados, alguns são presos, outros tantos ficam meio “lesos”; alguns conseguem recuperar-se. Isto tem tudo a ver com a política de saúde mental no Brasil, apesar de não somente com ela. Os números de leitos psiquiátricos fecham sistematicamente (6), com direito a fogos de artifício soltos pelo Ministério da Saúde comemorando a “humanização” do tratamento dado ao doente mental e sua “reinserção na sociedade”. Hospitais públicos fecharam, e abriu-se o paraíso das “comunidades terapêuticas” privadas, com pseudointernações longas, sem assistência médica, muitas sob a orientação de ex-dependentes (ex?), entidades estas que não têm fiscalização, mesmo porque muitas nem existem legalmente e a ANVISA as desconhece. Comunidades onde todos ou quase todos trocam autopiedade, e poucos, muito poucos enchem os bolsos. Médico? Prá quê médico? Então, qual reinserção? Se hospitais fecharam, os CAPs não abriram na mesma proporção e capacidade de funcionamento, e muitos doentes nem sequer conviver em sociedade podem, dada a gravidade da doença mental. Talvez reinserção às ruas e depois, ou à prisão, ou a sete palmos abaixo da superfície, dado que a mortalidade aumentou significativamente (7), em 41% concomitantemente em que 25% de leitos psiquiátricos foram desativados. Dados do próprio MS...
Voltarei mais a este tema futuramente, pois é do interesse de todos, haja visto que, se poucos gozam da sorte privilegiada de não ter algum parente com alguma doença mental, pelo menos um vizinho têm. De perto, ninguém é normal, diz o jargão, mas a maioria tem bons tratamentos, e isto não pode ser perdido de vista. O que acaba de sair do forno sobre o crack é seu lastro de destruição, que, como uma grande sombra do mal, dificilmente é recuperada. Pesquisadores da UNIFESP divulgaram sobre o acompanhamento por 12 anos de dependentes de crack; nada menos que 25% morreu no período, ficando no xilindró outros 12%, e 20% continuavam dependentes (7). 40% livrou-se do crack, mas não dá para dizer que livraram-se do lixo acompanhante a este.
Nas estatísticas mundiais de saúde de 2010 da OMS (8) o Brasil tem na totalidade de seus gastos de saúde somente 40% financiados pelo estado, sendo o restante vindo da iniciativa privada, e, nestes 60% está inclusa a fatia das comunidades terapêuticas espalhadas pelas cidades do interior em fazendas e chácaras. Em 2000 (9) ocupávamos a 125.a colocação no ranking mundial de serviços de saúde pública, o que não anima ninguém. Como ratos e baratas, onde se vê um, pode-se ter certeza da existência de dezenas. E assim está como vejo a situação do crack. Atingiu cidades pequenas, atingiu famílias organizadas e estruturadas emocionalmente.
E agora, José?
O dependente não procura psiquiatras, pois não é louco. E, paradoxalmente, não quer ficar “dopado”; acredite se quiser. Num país míope desde as esferas de administração federal, como criticar uma postura assim tacanha sem descer do salto? Não sei a saída. que seja melhor que a foto abaixo...

(1) How to stop the drug wars - Prohibition has failed; legalisation is the least bad solution; http://www.economist.com/node/13237193?Story_ID=13237193
(2) http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1036459-5602,00-PAISES+DA+ONU+DEFINEM+ESTRATEGIA+SOBRE+DROGAS+COM+VETO+DOS+EUA.html
(3) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Decreto/D7179.htm
(4) http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2010/12/725061-plano+de+enfrentamento+a+crack+tem+execucao+de+2.html
(5) http://www.uniad.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6904:violencia-e-crack-atormentam-brasileiros&catid=1:jogo-limpo-noticias&Itemid=167
(6) Camara, F.P. Mortalidade por transtornos mentais e comportamentais e a reforma psiquiátrica no Brasil contemporâneo. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 11, n. 2, p. 278-285, junho 2008.
(7) http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/02/apos-12-anos-29-dos-usuarios-abandonam-o-crack.html
(8) http://www.who.int/whosis/whostat/ES_WHS10_Full.pdf
(9) World Health Report (2000) Organização Mundial de Saúde, pp153.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Coisas de Uma Nova Esperança (será?)



INTRODUÇÃO
Recentemente o coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde foi exonerado. Tal fato repercutiu, entre os psiquiatras, como uma boa, longa e esperada notícia. Sob a gestão deste coordenador nós psiquiatras assistimos e fomos obrigados a ser testemunhas da desassistência psiquiátrica nos últimos anos. Em breve colocarei aqui uma resumida cronologia do que aconteceu para o fechamento de hospitais públicos (ou com financiamento de verbas públicas) a partir de uma postura política, teórica e ideológica para uma forma de assistência que viu-se, como em outros países antes de nós, não reabilitar o doente mental grave e acabou por aumentar o número de moradores de rua com problemas mentais, bem como sua mortalidade. Nesta postagem não entrarei em detalhes nem em argumentos. Apenas reproduzo minha carta ao Sr. Ministro da Saúde felicitando-o pela decisão de exonerar o antigo coordenador. Até o momento sua substituição é incerta, e ainda não se tem posições concretas de que algo mudará de fato nas políticas de saúde mental no Brasil. Mas a esperança reapareceu, ainda que tênue. Nas próximas postagens detalharei o processo que ocorreu e ocorre desde a década de 80 mais acentuadamente.



De: Marcelo Lourenço
Enviada em: sexta-feira, 28 de janeiro de 2011 06:42
Para: 'ministro@saude.gov.br'
Assunto: Coordenadoria de Saúde Mental (POR UM ATENDIMENTO PSIQUIÁTRICO DECENTE AOS PACIENTES)

Excelentíssimo Senhor Ministro da Saúde,
Dr. Alexandre Padilha,

Com entusiasmo e esperança recebi juntamente com muitos colegas da Associação Brasileira de Psiquiatria a notícia da recente mudança na Coordenadoria de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Acredito que todos os médicos psiquiatras que trabalham diretamente na assistência do SUS no Brasil estarão igualmente mais esperançosos e otimistas, com a exoneração do Dr. Pedro Gabriel Delgado da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Ele sempre em sua longa gestão ressaltou as “enormes dificuldades a serem superadas”, mas que, para quem as vive cotidianamente, somente pioraram ao longo destes anos todos em que, como comentou o colega psiquiatra Géder Grohs, igualmente em carta endereçada ao Sr. e divulgada na Lista Brasileira de Psiquiatria: “Sempre me pareceu estranho, que uma mesma pessoa fosse o coordenador de saúde mental por tantos anos e governos seguidos. Me perguntava se não teríamos outro brasileiro capacitado para tal...”.
Posso assegurar que esta percepção é a exata correspondência de muiitos psiquiatras (muitos mesmo) espalhados por nosso país, mas que estão atentos ao que acontece, porque sofrem no cotidiano o drama de tentar exercer uma boa medicina dentro de nossa especialidade. Na mensagem eletrônica do exonerado coordenador, ao anunciar sua saída do Ministério da Saúde (mensagem eletrônica circular n. 13/2011 de 24 de janeiro de 2011) ele colocou que “Neste período, compartilhamos importantes êxitos e inúmeras dificuldades...”. Honestamente Sr. Ministro, compartilho integralmente com as inúmeras dificuldades, mas nunca ao longo destes 20 anos compartilhei êxitos na gestão deste senhor. Sr. Ministro, cheguei a implementar e coordenar um CAPs também, e o que se começou com sonhos, hoje é grande pesadelo e fardo. De fato, como ainda colocou o Sr. Pedro Delgado ainda na mensagem de sua saída, “...Conseguimos, através de um trabalho coletivo e persistente, mudar o cenário da saúde mental no país.” Pois bem, Sr. Ministro, de fato ele conseguiu. O cenário piorou, e muito. Ao frasco quebrado recolham-se agora os cacos, com cuidado ao pisá-los, e posso da minha pequena atividade ambulatorial de uma cidade interiorana lhe prestar meus esforços, sem lhe aumentar o espanto por tal magnitude de tarefa. Felizmente, na época de Hércules isto não existiu para ele, mas tenho percebido daqui da roça que muitos amigos psiquiatras e prestigiados professores solidarizaram-se com esta mudança.
A antiga realidade dos chamados manicômios, que, diga-se de passagem, eram em sua maioria pagos pelo próprio Ministério da Saúde, sucedeu-se a da falta de leitos, pacientes graves morando nas ruas e sem assistência sequer emergencial em clínica médica, ambulatórios lotados e sem especialistas, falta de medicamentos, isto citando apenas apressadamente. Os CAPs não têm resolução de problemas psiquiátricos graves. Em outras palavras, as famosas gincanas, barracas de pipas, “corridas de saco”, oficinas de costura, quermesses de finais de semana NÃO previnem a deterioração orgânica que a Esquizofrenia provoca em décadas, e que pode ser documentada em exames de imagem, que somente podem ser interpretados e tratados por médicos. CAPs não reduziram risco de suicídio ou de violência doméstica em famílias de pessoas com doenças psiquiátricas. A isto some-se aos dependentes de álcool e drogas nas ruas que não encontram vagas para internação quando em quadro psicótico ativo ou mesmo abstinência e encontraremos o denominador comum do que certamente chama-se “omissão do Estado”, que, apesar de não ter vindo na gestão do Sr. Pedro Delgado, certamente agravou-se, e muito, no decorrer dela.
Então, Sr. Ministro, como sendo o Sr. um colega médico infectologista, creio que será relativamente fácil apreciar que a doença mental pode, de certo modo, ser vista às lentes de uma doença infecciosa. Isto porque a esmagadora maioria dos doentes mentais não sofrem sozinhos, mas trazem também imenso sofrimento psíquico a seus familiares e próximos. Neste aspecto, a doença mental é sim contagiosa, mas, como outras das literalmente (biologicamente) doenças infecciosas neste país, escaparam ao controle dos órgãos competentes. Como nunca antes neste país, nem nos tempos de Oswaldo Cruz.
É hora de uma guinada. E como membro da Associação Brasileira de Psiquiatria sei que ela estará solidarizada neste propósito.
Com cordiais respeitos,
Marcelo Lourenço de Toledo
CREMESP 72.723
Médico Psiquiatra (TEP)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Coisas do Haiti


Algumas experiências marcam nossas vidas definitivamente, como divisores de águas. E o tempo de um elogio não está em um momento somente, mas está sim no eterno presente. Isto porque um reconhecimento verdadeiro, como um elogio é algo que nunca se perde; grava-se como pintura nas paredes do coração para ficar no devir eterno, soprando aos ventos. A admiração é quando luzes diversas se unem para ficarem mais fortes e luminosas. E é disto, do elogio, que ofereço aqui.
Quando houve o terremoto no Haiti eu também estremeci. Eu tinha amigos lá. Demorou-se alguns dias para se ter notícias consistentes de quem havia passado por ele, ou se perdido nele. Na minha própria comoção fiz minha inscrição junto à Associação Médica Brasileira para ser voluntário e prestar ajuda, que não foi necessária. O que pouca gente sabe é que o Coronel Cysneiros, o Tenente Coronel Alexandre Santos, muitos tantos amigos, estudamos juntos, quando eu fiz parte da ativa do Exército Brasileiro. No meu íntimo não existe um ex-militar; existe um militar da reserva. E eu saí no início ainda da Academia Militar das Agulhas Negras somente porque queria ser médico, e não por não gostar da vida militar. A maioria continuou, e o Cysneiros e Alexandre entre eles. Em uma época em que os milicos estão em baixa, em que um soldado das Forças Armadas do Brasil já não chama muita atenção entre nós cidadãos, eles estavam lá no Haiti neste dia; o Coronel Cysneiros (à esquerda) faleceu no terremoto. Estudamos todos juntos. Não me proponho agora a opinar sobre se o Brasil deve ou não ter ações militares no exterior em conjunto com a ONU; tampouco a falar sobre o que pode intimamente fazer uma pessoa comum como nós todos, um soldado, deixar sua família por ter uma missão a cumprir. Meu elogio é na verdade para espalhar o próprio depoimento deste brasileiro salvo, que como muitos por aí não perdem a vida num segundo, mas que como nem tantos (ou raros) estão dispostos a sacrificá-la por acreditar no seu país e em seus valores. E este valor é peculiar a alguém que já passou pelas Forças Armadas. Ela não serve a governos, mas ao país, à Pátria. Sem também querer revolver rumores arrepiantes e arredios do período recente dos governos militares, foram estas Forças Armadas, desprestigiadas, sucateadas, mal remuneradas, sem efetivo, que ao longo de nossa história mantiveram a unidade geográfica de nosso país, ajudaram a manter nossa língua, e que praticamente forçaram a abolição da escravatura e a proclamação da República.
Mas chega. Segue o que o próprio Alexandre escreveu, narrado na 3.a pessoa. A vivência emocional daquelas horas não podem ser computadas nem em anos, e não me cabe falar do que senti ao ler sua mensagem; é ele quem está na foto ao começo desta crônica. A vocês, suas famílias o abraço meu e de todos ao que passaram pelos portões da EsPCEx e da AMAN. E meu singelo orgulho pessoal de, mesmo distante no meio de tantos jovens que sonhavam ser oficiais há tanto tempo, sinto-me ainda próximo o suficiente para chamá-lo de amigo, pelo elo da caserna que um dia uniu nossa turma, e relembrar de modo carinhoso, mas sem denunciar negativamente, que este tenente coronel teve um singelo, espirituoso, feio e engraçado apelido de “Negusa”!
Continue na Luz, e que Deus lhe abençoe sempre! Nosso país precisa de que todos os heróis do dia-a-dia, que ainda não têm consciência de seu percorrer no mundo, acordem para que nossos filhos possam ver o futuro sem mensagens de fim do mundo, mas de prosperidade.
Lourenço

O SALVAMENTO DO TEN CEL ALEXANDRE SANTOS
No dia 12 de janeiro de 2010, durante o terremoto ocorrido no Haiti, o Ten Cel Alexandre Santos encontrava-se no térreo, parte externa do prédio da ONU, juntamente com outros dois oficiais e um sargento.
Quando iniciou o tremor, cada um tomou um destino, em busca de segurança. Ele e um dos oficiais correram em direção à piscina abandonada. Ao saltarem em um desnível de uns 2 metros que havia, o Ten Cel Alexandre percebeu que não daria tempo de chegar até uma área segura e decidiu encostar-se na mureta, seguindo as técnicas de sobrevivência em caso de terremotos. O outro oficial continuou correndo e, infelizmente veio a falecer.
Encostado na mureta, o tenente coronel acompanhou o desabamento do prédio sobre sua cabeça. Adotou uma posição de proteção fetal e ficou aguardando o pior, pois não acreditava poder sair vivo de uma situação daquelas. Após intermináveis segundos de muito barulho, escuridão, poeira, temor, orações e esperança, percebeu que o desabamento havia terminado e que por algum motivo ele ainda estava vivo e consciente.
Vivo entre os escombros, fez um check-up de seu estado físico e percebeu que conseguia respirar, suas funções vitais estavam normais e que, a princípio não tinha perdido nenhum membro. No entanto não conseguia se mover, estava completamente preso. A única solução seria pedir por socorro, e foi o que fez em português, inglês e espanhol.
Após cerca de 30 minutos começou a ouvir vozes do lado de fora, acima de onde ele estava preso. Identificou-se e tentou guiar, a partir daí, o esforço de busca, mas o local em que se encontrava era de difícil acesso, centenas de toneladas de cimento, tijolos e ferro retorcido sobre sua cabeça dificultavam o trabalho das equipes de resgate.
Foram cerca de seis horas soterrado, alternando momentos de fé, esperança, dores por todo corpo, anestesia de uma das pernas, solidão, tristeza pelo futuro incerto, saudades, lamentação pelo que deixou de ser feito e principalmente pelo que deixaria de fazer junto à sua família. Durante todo esse tempo ocorreram diversos outros pequenos abalos que o deixavam muito temeroso.
Percebeu a chegada de uma equipe de resgate, vinda pela parte de trás, não conseguia enxergá-los, porém podia ouvi-los se aproximando. Ao chegarem, identificaram-se como sendo dois militares bolivianos, o tenente coronel Laredo e o tenente Sanchez. Após um breve contato e análise da situação, explicou que era mais urgente desenterrar suas pernas e assim o fizeram, com suas próprias mãos e um pequeno pedaço de ferro, pois não havia ferramentas adequadas.
Durante cerca de uma hora, permaneceram lá embaixo, junto com o Ten Cel Alexandre Santos, amparando, trazendo esperança e conforto, apesar dos abalos continuarem durante o resgate. Estes dois militares permaneceram inabaláveis na missão que haviam abraçado, o salvamento daquele brasileiro, a qualquer custo.
O militar brasileiro foi orientando os bolivianos de como ir retirando os escombros que estavam por cima dele. Após muito esforço ele conseguiu girar o corpo e fazer um percurso de cerca de cinco metros para fora dos escombros. Finalmente chegaram até a luz, onde pode finalmente ver os rostos de seus salvadores e pode agradecê-los de forma sumária, pois estava com dores e numa maca, mas sua vontade era de poder expressar todo seu reconhecimento pelo feito heróico que haviam acabado de executar.
“A estes dois bravos heróis bolivianos, eu devo a minha vida e sei que nunca terei como agradecê-los a altura, a não ser em minhas preces diárias. Se houve heróis neste desastre, dois deles com certeza são o Ten Cel Laredo e o Ten Sanches, que colocaram suas vidas em risco para salvar um oficial de outra nação, que Deus os abençoe”. Declarou o oficial brasileiro.
ALEXANDRE JOSÉ SANTOS – Ten Cel



quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Coisas das Escolhas


Nada mais apropriado que o momento político nacional para se falar em escolhas. E para introduzir esta crônica, vou citar a recente frase do economista Danon, em matéria publicada no “Estadão” (1):
“Vale lembrar que a maior virtude da democracia não é a de nos conceder a faculdade de optar pela escolha certa, mas sim a de nos garantir o permanente direito de poder corrigir a escolha errada.” (J.Danon).
Poucas coisas são tão sensatas como reconhecer que não existem escolhas certas, e que, afinal todas envolvem probabilidades. Decerto, quanto mais difíceis as decisões mais na escuridão nossa alma fica. Sem perceber, estamos escolhendo e deixando de escolher a todo momento; e, mesmo sem escolher, somente pelo deixar acontecer, já temos conseqüências da escolha de não escolher. É deste conflito íntimo, por vezes até imperceptível na consciência que o termo “encruzilhada”, típico das religiões afro-brasileiras foi trazido como representação (e reificação) da escolha de um caminho entre pelo menos dois. A verdadeira encruzilhada é na alma. E dela o suor angustiante da dúvida. Como disse um amigo outro dia, “como é difícil atingir a maioria silenciosa!”. Isto porque as nossas decisões cotidianas estão neste silêncio e nesta penumbra, e, de repente, irrompem de tempos em tempos coletivamente em um espanto colocado para todos que “o povo não sabe votar”. Ora, se o povo não sabe votar, comecemos a pensar por pequenas escolhas nossas das rotinas da lide diária. Através delas forma-se natural e sutilmente uma imensa teia holográfica das escolhas (feitas ou não) de nossas vidas e de suas consequências, que nos aproximam ou afastam de outras pessoas. Não tem mágica nisto. Seu reflexo coletivo acaba nos governantes, nas formas de constituição do poder vigente. A permanência da democracia não garante que nosso futuro será melhor, e isto vale em todas as escalas de vida. Mas a permanência da possibilidade de opção nos garante aprender com erros e incentivar os acertos. Não existe decisão que seja absolutamente racional. As mais incertas, contudo, são as absolutamente passionais. Temos exemplos históricos disto, muitos. A Guerra de Tróia foi uma destas ocorrências da humanidade, que, seja mítica ou real, onde a atração e fascínio de uma mulher consciente de sua beleza e sensualidade fez homens derreterem as sinapses de seus córtex cerebrais e elevarem os níveis de testosterona ao Olimpo liberando todo o “id” inconsciente e provocando uma guerra, por causa da mulher. Escolhas. Ou falta delas. Ulisses, o desorientado e problemático rei sem um GPS olímpico da antiguidade grega que aparece no final da Ilíada homérica conseguiu perder-se por 10 anos num marzinho pequenininho de fuleiro, mas que tem a representação simbólica da jornada da alma das diferentes escolhas de nossas vidas, até seu regresso à casa e à família. Um pequeno detalhe de uma escolha diferente, e a teia holográfica giraria para outro destino. Assim foi na Ilíada, e é em nossas vidas. Em uma parábola zen-budista o jovem monge pergunta a seu mestre: “mestre, como posso chegar à sabedoria?”. Ao que este responde: “fazendo boas escolhas!”. “Então, como faço para fazer boas escolhas?” pergunta novamente o jovem discípulo. O mestre o olha e responde: “aprendendo com as más escolhas”.
Por fim, voltando à democracia e aos votos, teremos logo uma grande decisão que, fundamentalmente, será fruto das pequenas, individuais, passionais, imediatistas, racionais, ideológicas, possivelmente burras escolhas. Apenas de pessoas, milhões delas. No Brasil de hoje, honestamente não penso que nenhum dos dois candidatos tirará nosso país da rota de um buraco mais à frente.
Mas, como disse nosso mestre Machado de Assis ao tratar das ilusões do poder e riqueza da vida:
“Ao vencedor, as batatas”.
(1) http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100611/not_imp564898,0.php

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Coisas Imperdoáveis

Que coisas podem ser perdoáveis, e quais coisas são imperdoáveis? Trata-se de uma difícil pergunta, mas da qual vez por outra nos deparamos. Começarei por aqui; pedir desculpas às vezes de nada resolve. Certas coisas são de fato imperdoáveis em minha maneira de ser e ver o mundo e a mim mesmo.Uma notícia divulgada na sexta-feira 1.o de Outubro: o governo dos EUA admitiu oficialmente e pediu desculpas por ter feito experimentos indevidos com seres humanos (1). Este era o “Tukesgee Syphilis Study”. Médicos americanos observaram, porém sem promover tratamento, a centenas de homens afro-americanos com sífilis em estágios tardios de evolução da doença, o que pode ter começado em 1932. Além disto, o governo americano confirmou ter infectado com sífilis em experimentos conduzidos de 1946 a 1948, com deliberada violação da ética médica. Os “cientistas” enviaram prostitutas infectadas por sífilis para uma prisão da Guatemala, uma instituição hospitalar psiquiátrica e acampamentos do exército para “testar possíveis novas curas”. Os homens poderiam ter relações sexuais desprotegidas com estas prostitutas, porém sem terem sido informados ou ter consentimento afirmado."Although these events occurred more than 64 years ago, we are outraged that such reprehensible research could have occurred under the guise of public health … we deeply regret that it happened, and we apologize to all the individuals who were affected by such abhorrent research practices.” Estas foram as palavras da Secretária de Estado Hillary Clinton (2).
Esta questão atingiu-me de uma forma peculiar, por eu ser um médico que se considera também humanista. O mundo esteve sempre cheio de tiranos que vez por outra nascem e crescem espalhando sofrimento e sangue por suas mãos. De matadores de primogênitos no Velho Testamento, passando por Vlad Dracula (o Empalador), aos genocidas dos índios americanos, armênios, aos grandes tiranos do século XX estamos cheios de exemplos de gente que propositada e violentamente ceifou vidas aos montes. Sempre procuramos por similaridades entre estes perfis nas diversas tentativas de entender os tiranos. Mas, curiosamente, na história da humanidade, encerrar uma tirania nunca impediu que novas surgissem. E nunca nenhum tirano morto por vontade popular armada ou não fez com que a tirania em si deixasse de existir; ainda de tempos em tempos subsequentemente outros serem humanos novamente tornam-se vítimas de novos ciclos de tirania. Mas estas aqui que mencionei são formas tirânicas que transformaram-se em governos totalitários. O que a notícia trouxe de diferente, embora nem tanto espantoso, é que foi uma forma de tirania executada por agências de governo, em mais de um deles do mesmo país, e patrocinado por uma agência de saúde; não se menciona nenhum laboratório ou empresa da chamada "Big Pharma". Então neste caso não se tem apenas uma pessoa; tem-se uma sequência de pessoas que diluíram sua responsabilidade ética, em governos que sucederam-se, aparentemente democráticos. Alguém deve lembrar-se do filme “O Jardineiro Fiel” (“The Constant Gardener”, 2005) que tratou desse mesmíssimo tema. Não são mais “teorias de conspiração”, como vez ou outra toma conta da mídia. O que aconteceu foi um caso real, envolvendo pessoas inocentes, à mercê de autoridades, que ainda devem estar algumas vivas.
Mas desculpas não adiantam, assim como de boas intenções o inferno está cheio.
(1) http://www.wellesley.edu/WomenSt/Synopsis%20Reverby%20
(2) http://www.mcclatchydc.com/2010/10/01/101473/us-admits-it-infected-guatemalans.html#ixzz11OYPqSWB

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Coisas do futebol, do inconsciente, e do atrevimento irreverente


Um dia ouvi o narrador e comentarista de futebol José Silvério, da Rádio Bandeirantes de São Paulo afirmar: “Eu não gosto de esporte. Eu gosto é de futebol!”. E sou assim também; já nem torço como antigamente, pois é parte da estratégia do que chamo “profilaxia do infarto”; aprecio com entusiasmo e sem exageros, quando é possível; para mim é quase incontestável que futebol situa-se numa categoria distinta de outros esportes. Nenhum suscita tanta magia e arrebatamento, parece ter uma alma própria, que carece aos outros. E costumo às vezes dizer que futebol se joga com três coisas principais: o cerebelo, hipocampo (sistema límbico), e o inconsciente. Pernas, canelas, joelhos são mera extensões. E, nesta colocação minha um tanto ousada, tocamos na integridade emocional e no delicado equilíbrio para se comandar um corpo, que por vezes parece estar presente somente a nossa frente ou na telinha, porém distante, etéreo, dependente das milhares de sinapses entre este hipocampo e o cerebelo, todas estas o substrato para o inconsciente para dar-nos a vida psíquica. As pessoas gostam de falar sobre o “emocional” do futebol, e é verdadeiro; é a percepção intuitiva da manifestação do inconsciente, que na linguagem popular, é o sinônimo da “caixinha de surpresas”, figura lingüística esta repetida centenas de milhares de vezes, todas as semanas. Mas fala-se de modo como se o emocional (inconsciente) fosse um objeto de controle, não um sujeito, um inconsciente que promove a realização dos desejos. Observem as narrações de rádio ou TV. E, quando ele (este emocional inconsciente) promove esta realização dos desejos, abre-se a caixinha das surpresas, como uma nova caixa de Pandora, podendo levar um atleta aos píncaros das glórias, ou ao vale das lágrimas, os torcedores às lágrimas e risos sublimais, ou à raiva e humilhação. Treinamentos de alto rendimento e performance biomecânica, padrões fisiológicos e comportamentais rigidamente controlados, preparações física, técnica e tática, etc muitas vezes acabam por contar pouco, e pior, deixando o jogador reduzido, à mercê de seu inconsciente ou do inconsciente coletivo. Lembram-se do Antonio Fagundes, o Barbosa, goleiro da seleção brasileira de 1950 e que carregou nos ombros e na alma a melancolia eterna de ter sofrido o gol da derrota? Lembram-se de Roberto Baggio, lembrado eternamente por ter perdido o pênalti que deu o título ao Brasil em 1994? Ambos, derrotados pelos monstros de seu próprio inconsciente, embora, tecnicamente, fisicamente e objetivamente impecáveis craques. Fiz estas duas lembranças porque saiu nesta 4.a feira 22 de Setembro na mídia esportiva a demissão do técnico do Santos por conta de ter punido Neymar, ao não escalá-lo para o jogo contra o Corínthians. O rebuliço todo durante mais de uma semana revelou o que o inconsciente coletivo faz com o futebol, e seus atores. Neymar tem se envolvido em situações ora deslumbrantes, ora decepcionantes. Tipicamente um exemplo que, se seu corpo é uma máquina perfeitamente talhada para executar o melhor futebol possível, seu inconsciente não coopera no mesmo sentido neste momento. Na coletividade do futebol, existem outros jogos em campo nos estádios da alma coletiva; o da grana, e representante do poder é o mais aparente. Temos o jogo da ciência: temos que transformar Neymar (e muitos outros), com todo o aparato científico da medicina esportiva em um vencedor. Juntou-se o jogo da ambição. Nisto, que lugar toma o jovem Neymar neste complexo sistema? Ou onde deixa de colocar-se, uma vez que subitamente perdeu o encanto geral e divide-se exteriormente em uma persona odiada ou amada, sinal de sua cisão interior. Mas este é apenas mais um exemplo de divagação, não se trata de diagnosticar alguém que absolutamente não conheço. Ele mesmo afirmou que não desejou agir assim, e retratou-se publicamente. Mas, em se tratando do inconsciente, nem todo desejo que encontra expressão e realização está na consciência; forma-se aquém desta.
A questão que isso suscita no futebol é que há uma complexa rede de relacionamentos, como na vida, dentro da qual cada sujeito ocupa determinada posição em relação ao outro, todas provisórias, e, no momento posso parafrasear Freud, e dizer que temos um mal-estar, seja na civilização, seja no futebol. Que já vinha desde Dunga, meses atrás, desde as políticas da CBF, e quiçá desde sempre. Nós, reles e vorazes torcedores, famintos pela sublimação do gol mais querido, queremos nada menos que a maestria dos jogadores, mas esbarramos nas relações (seja entre atletas, entre estes e técnicos, e entre dirigentes), e esbarramos no capital e no mercado, que, por fim, dá as cartas finais. E este domínio que acaba por ser o causador de nosso mal-estar; não está mais em campo, virou uma figura fantásmica, de bastidores, do inconsciente. A vivência humana do jogador, do craque, do matador, do driblador, daquele que rasga, chapela, que dá banho, que beija a camisa, que enfim, leva-nos ao delírio coletivo, esta é só mais uma figura, ou no linguajar futebolês, “peça de reposição”. Ponha-se um novo rei! The King is dead! Long live the King!
Pelé, Zico, Falcão, Rivelino, tantos outros parecem ter se despido desta persona. Resta saber se Neymar conseguirá. Enquanto nós permaneceremos os eternos amantes, no devaneio das pulsões em busca do prazer, da poesia utópica, da loucura, do gol como um gozo psíquico coletivo, e, enfim, como cantam os fiéis: “Aqui tem um bando de louco! Louco por ti Corínthians!”.
A razão? Ora, a razão não tem graça nenhuma nisto...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pensamentos e devaneios sobre suicídio III


Em 2007 levei ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria um pequeno trabalho sobre suicídio nas cidades de São Roque e Mairinque (SP). Como são cidades menores que 100mil habitantes, estes dados não são computados pelos censos gerais. Neste levantamento, algumas coisas interessantes, pude perceber, e relacionam-se à notícia publicada de que 9000 pessoas cometeram suicídio em 2008 no Brasil (parte I deste tema). Além dos índices não terem uma abrangência total sobre a população, uma vez que somente centros populacionais maiores são computados, há também um outro ponto relevante: muito provavelmente o número de suicídios é sub-reportado, como se supõe ocorrer em todo o mundo. Quando se refere a este assunto a tendência sempre é o predominar do silêncio. Lembremos que seguradoras e muitos planos de saúde não dão cobertura para as tentativas de suicídio, ou não pagam o sinistro do seguro de vida para a pessoa que suicidou-se. Se você nunca leu suas apólices de seguro de vida ou de plano de saúde veja e comprovará por si mesmo. Uma vez muito tempo atrás tive um paciente que tentou matar-se com a ingestão de medicamentos, e ao dar entrada em um importante hospital privado de São Paulo, a família foi informada que o plano de saúde não cobriria a internação; isto fez com que houvesse um delicado arranjo para que o médico que o atendeu colocasse um diagnóstico de uma intoxicação de modo que ele pudesse ser tratado ali, e eu através de bilhetinhos ou telefonemas ao colega dava a prescrição a ser realizada para evitar suspeitas por parte de auditores. Não penso que seja incomum surgir outros diagnósticos no atestado de óbito em que se escreve que a pessoa morreu, mas não se menciona o suicídio, e isto tem origem diversas, seja pelo temor ao tema, o estigma deixado, despreparo ou receio de equipes médicas em dar este diagnóstico ou mesmo em tratar a pessoa desde sua chegada ao pronto-atendimento hospitalar quando isso ocorre. Mais além, tem determinados casos que envolvem acidentes, ou morte súbita e domiciliar que passam ao largo disto. Simplesmente muitas vezes não dá para saber ou é necessário um detalhamento de detetive.
No trabalho que mencionei, fiz um levantamento do número de suicídios durante o período de 2000 a 2006 naqueles dois municípios, e a população dos dois na época não chegava aos 100mil habitantes somada pelos dados do IBGE, e naquele período houve 46 mortes por suicídio. O fato mais curioso é que do total apenas 3 pessoas faziam tratamento em ambulatórios de saúde mental do SUS, e nenhuma das demais realizou tratamento privado. Muita gente morreu sem estar assistida seja por um psiquiatra, seja por um psicólogo. Outras tantas estiveram sofrendo também e à margem de assistência.
Este levantamento ressaltou a premente necessidade de programas em municípios de pequeno porte para detecção de população de risco de comportamentos que podem levar a auto-agressão. Mas de forma alguma isto pode ser considerado um fator a ser pensado isoladamente, uma vez que circunstâncias como comorbidades psiquiátricas, outros tratamentos e doenças clínicas, insuficiências de saúde pública e de educação, violência urbana e doméstica, abuso e dependência de substâncias (lícitas ou não) caminham a largos passos e de mãos dadas ao evento do suicídio, que aparece, enfim, sendo apenas a boca do funil de um problema não somente psiquiátrico, também de saúde pública e social. Não creio hoje ser possível em um país como o nosso, com problemas estruturais tão complexos em sua sociedade, pensar sobre programas de prevenção de suicídio unicamente. Como em outras tantas coisas.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pensamentos e devaneios sobre suicídio II


“... passo os dias nesta enfermaria a contar os ladrilhos dos pisos, os vidros das janelas... como a contar que o resto de minha vida em tudo me é inútil, bem como eu mesma. Nada me convence, Dr. Marcelo, que haja uma razão para eu continuar a viver; desespero... desespero... desespero, é o que tenho só dentro de mim. Não tenho vida, ela não me pertence e nunca pertenceu; há só um imenso nada; você não me impedirá de morrer, nem de ninguém; nem a morte eu desejo, pois só tenho a absoluta ausência de vida, o resto será somente a consecução...” (Eliane, carta em 1992).

Eliane jogou-se em frente a um trem do metrô em São Paulo, em um final de semana em que estava visitando sua família; tinha somente 21 anos, e passou muitos meses internada no HC quando eu ainda era médico residente em psiquiatria. Nestes 20 anos na especialidade que completarei este ano tive 6 pacientes meus que cometeram suicídio. Em minha família tive um parente um tanto distante que quando eu era criança também matou-se. Não dá para esquecê-los todos. Guardei durante muito tempo uma sensação incômoda, parecida com uma dor nas costas que não passa nunca completamente sobre “será que fiz alguma coisa errada ou deixei de fazer alguma coisa?”, como uma confirmação de um fracasso que não poderia jamais ter ocorrido, que eu não deveria permitir que ocorresse. Estúpida onipotência médica esta. Mas o suicida deixa um rastro permanente. De fato, precisa-se de coragem para pensar seriamente na própria morte. Humildade também; esta idéia causa por si só angústia. Mas no ato suicida de fato planejado eu penso que há uma grande coragem; pode ser em meio ao desespero, à situação de ver-se sem saídas possíveis que não a morte. Mas não acho que seja algo que possa chamar-se de ato covarde. Dos meus seis pacientes que se suicidaram, quatro o fizeram dentro de um hospital psiquiátrico. Inicialmente cheguei a pensar nas possíveis faltas de segurança, negligência, intolerância à pessoa deprimida; mas isto é muito pouco e na verdade é somente um espelho da própria impotência minha enquanto psiquiatra destas pessoas. Faz parte do que Becker acabou por conceituar como “negação da morte”; como não podemos suborná-la, vivemos tentando deixar no faz de conta que ela não existe de fato assim tão próximo, assim tão assustadoramente presente. Talvez pudesse considerar que estes meus ex-pacientes que se mataram tiveram uma “agressiva misericórdia”. Agressiva sim, e o suicida não agride somente a si mesmo, não somente a si o ato inflingido contra o próprio ser (mente e corpo) atinge, mas pelo lastro deixado a familiares e amados e odiados. Um lastro incognoscível de escuridão e dor, que mesmo as convicções religiosas não conseguem responder na intimidade das lágrimas escondidas por dúvidas inquietantes de quem se foi de forma tão absurdamente incompreendida. E as dúvidas ficam rondando estes que ficaram, num redemoinho, tal qual no estreito de Messina, pego entre Scyla e Caribdes, onde ressentimentos, raivas, saudades, apegos ficam circulando, mas jamais respondidos.
Depois destes 6 pacientes, creio que já passaram de 100 as pessoas que atendi e que tentaram ou seriamente planejaram suas mortes, mas por uma razão ou outra, divina ou não, a vida continuou e isto não ocorreu. É então que pesa em relevância o dado de minha primeira postagem sobre este tema, que apareceu em uma reportagem do jornal “O Estado de São Paulo”. O suicídio é um processo, e a morte o clímax fatal. Neste processo existe uma comunicação. O suicida costuma deixar sinais de seu desejo e enamoramento com a morte. É este descerramento de mensagens verbais ou não, que geralmente estão criptografadas, que se pode levar ajuda profissional e espiritual a estas pessoas. No que se refere a este tema, o provérbio “cachorro que ladra não morde” não tem validade: por volta de 90% de pessoas que eliminaram suas próprias vidas deixaram algum aviso sobre sua intenção previamente; e as pessoas que tentaram de alguma forma têm mais de 30% de chances de tentarem novamente.
continua...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pensamentos e devaneios sobre suicídio I


Saiu segunda-feira (26/07) uma reportagem no “Estadão” a respeito de suicídio. Com dados do próprio ministério da saúde, divulgou que mais de 9 mil pessoas chegaram ao suicídio no Brasil em 2008 (“link” no final da matéria). Deixarei para comentar em outra postagem sobre a questão de saúde pública, números, enfim, sobre a questão psiquiátrica relacionada ao suicídio, e minha experiência profissional também.
Mas antes de tudo, quando penso sobre isto, o suicídio, remeto-me a uma questão que é das fundamentais para a humanidade: a vida merece ser vivida? O que nos faz viver um dia após o outro, e onde encontramos o sentido para isto? Sem ter a pretensão de respondê-la, é aí que lembro-me de Sísifo, condenado a um trabalho inútil e sem sentido. Como todo mito, ele traz consigo as regras morais e sócias de sua época. O curioso de Sísifo, contudo, é que ficou preso a um viver sem vida e sem propósito justamente por tentar burlar a morte, ao invés de precipitar-se a ela como o suicida faz. Foi por recusar o ciclo natural de viver e morrer que, no Tártaro, empurrava diariamente sua pedra de mármore montanha acima e depois a observava cair, e voltava para buscá-la. No mito, não encontramos a angústia de Sísifo sobre esta tarefa. Sabe-se somente de sua condenação. E então podemos colocar o paralelo com o cotidiano da modernidade, refletido de diversas formas em rotinas que se repetem sem fim. Sem propósito, embora com grande esforço e com aparência de nada. E o que a mitologia pode em sua forma alegórica ensinar através disso? Mais do que encontrar uma identificação com um determinado personagem, o mito mostra um papel social. O que podemos carregar do mito ao invés da pedra de Sísifo é que ao percebê-lo existindo dentro de nós, há a abertura de uma pequena porta: a que pode nos livrar da prisão do mito. Como ele esteve preso, muitas pessoas o estão, e sentem-se de fato condenadas a determinados padrões de seu viver, de comportamento, posturas e julgamentos morais que são circulares, sem começo ou fim. Muitas outras pessoas não percebem este sentimento, deixando-se num viver vazio e repetitivo.
Isto o suicida percebe. E é dessa angústia que o desespero de por fim desesperadamente ao intenso sofrimento da prisão do repetir a falta de sentido que a morte aparece de braços abertos. Pena que muitas vezes percebe sem poder comunicar e expressar sem ser julgado ou condenado – mas dessa vez não como Sísifo, e sim como Eco, quem não tinha resposta de seus chamados.
continua...
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,mais-de-9-mil-pessoas-chegaram-ao-suicidio-no-brasil-em-2008-diz-ministerio-da-saude,586205,0.htm

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quando Eu Atravessar o Deserto

Queria que me esperasses em tua porta, e, ao ver-me, saciasses minha sede, e aliviasses minha cegueira. Porque longos são os tempos de infortúnio, e a angústia da vida humana toma-me por completo, fazendo-me deixar de ver nas coisas, todas as coisas; fazendo-me deixar de sentir, sentindo a alma chorar.
Queria que dissesses: "Sou Lin-Hwan, a mulher do teu mundo, em teu mundo-mulher", e que tomasses minha mão, levando-me, já não mais cego, a conhecer as coisas que sabes, fazendo-me sábio sendo ignorante, tornando-me puro ao conhecer a corrupção.
Quando eu atravessar o deserto, queria ouvir-te entoar teu cântico, na sua nota primordial, e fazer-me ouvir a música existente em meu ser, presente nas esferas. Porque muitas foram as lamentações que ouvi, e muitos os gritos de dor e abominação que proferi, e a fealdade fez-me esquecer que tua música contém a própria criação. Então, sacia minha sede, toma-me pela mão, e canta tua música.
E quando Concórdia for restaurada, mostra-me a luz do ser, da qual se fez todas as outras luzes e cores, pois estou farto de trevas e preenchido com a escuridão do deserto em que habito. Veste-me de estrelas e dança tu comigo a harmonia que envolve todo o caos.
Queria que levantasses teu véu, dissipando as ilusões alimentadas pelos falsos sábios do deserto dos meus caminhos, que acendem velas à luz do sol, e, ignorando-o, dizem que iluminam o mundo com a chama tênue que seguram, e que o pó apaga. Revela-te a mim, para que eu seja minha própria verdade interior.
Espera-me tu em meu leito, para que possas enxugar meu rosto enrugado pelas decepções e sujo de suor e areia que o vento das terras áridas por onde passei castigou-me, e, estando eu limpo, digas: "Sou Lin-Hwan, a filha do rei distante, e espero para que possas tomar--me como tua em teu leito." Então, sacias minha sede, toma-me pela mão, canta tua música, mostra-me a luz, revela teu rosto e deita-te comigo, fazendo-me completo.
Quando atravessar o deserto, estando velho e cansado, enrugado pela desolação e coberto de cicatrizes mal curadas das lutas e provações que ele me submeteu, peço-te levar-me ao lago que há na montanha, para que eu possa refrescar meu corpo doído, envolvendo-me com a água da vida; e, do alto, contemplar (humildemente) os caminhos que percorri, e as belezas que só tu podes mostrar-me.
Assim, quando eu voltar do deserto, ofegante das guerras e exalando morte por meus poros, inspira em mim teu perfume, para que eu respire novamente e teu espírito preencha minha consciência, fazendo do mundo de minha mente uno como foi antes de ser.
Mas, agora que não posso ouvir-te em meu coração, que estou perdido sem saber meu norte, peço-te vir aos meus sonhos e falar-me da magia que há no deserto, em seus perigos ocultos, guiando-me a meu destino. Porque nada vejo além do horizonte, e só tu sabes perscrutar as distâncias do tempo. Então, sacias minha sede, toma-me pela mão, canta tua música, mostra-me a luz, revela teu rosto, deita-te comigo, refresca meu corpo, inspira-me a mente, fala tu nos meus sonhos. És Lin- Hwan, eternamente virgem, eternamente grávida.
E, quando vires exalar meu alento último, cheio do ar de meu deserto, já percorrido, queima-me na pira dos magos para que meu pó possa espalhar-se com o pó. Porque meu espírito estará arrebatado em outras mansões e tu, com tuas asas, o levará seguro. Só então serei um homem, pleno de vida e de amor.
11.03.1990